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Políticas públicas

O umbigo do rei e a fome do povo: sem ouvir a população, não há governo

Sem o aval dos moradores, que pagam impostos, e que de fato caminham no dia a dia e vivem na cidade, não se pode falar em gestão democrática, participativa e de resultados

Publicado em 09 de Fevereiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

09 fev 2021 às 02:00
Paulo Brandão

Colunista

Paulo Brandão

Vitória - ES - Após o início da pandemia de coronavírus a população de rua parece ter se tornado mais evidente na Grande Vitória.
Estamos vivendo uma crise sem precedentes na História recente e nada é feito para amenizar a fome do povo Crédito: Vitor Jubini
Tem uma história que contava para minha filha antes de dormir. Trata-se de um rei que havia perdido o seu umbigo. Ao olhar no espelho não conseguia vê-lo. Ficou tão preocupado que revirou o palácio de cabeça pra baixo. Depois de muitas tentativas sem sucesso, resolveu sair em caravana pelo reino para encontrar o seu umbigo. Passados dias, meses e até anos, o rei não retornava ao palácio, de tão grande que era o reino. Na procura pelo umbigo, ele olhava cada barriga e via que cada um tinha o seu. E foi assim que conheceu a situação do seu povo.
Ao se aproximar de cada súdito, o rei ouvia um ronco. O povo, na verdade, estava com fome. Sem produzir, pois faltava apoio para a colheita. Enquanto no palácio, tinha tudo de bom para comer. Ao retornar, depois de tanto andar e ver os problemas, ordenou que fosse dado apoio para melhorar as estradas, incentivar a agricultura e apoiar as famílias com fome. Ao olhar no espelho conseguiu, depois de anos, ver seu umbigo. Na verdade o umbigo sempre esteve ali, no lugar dele. O rei que estava distante demais da realidade do seu povo. Vivia só no palácio, em torno do próprio umbigo, e por isso, não conseguia ver a fome e miséria no seu reino.
Hoje, os novos prefeitos, com a tecnologia de comunicação instantânea e redes sociais, podem ter acesso ao que acontece na cidade sem precisar sair de seu gabinete oficial. Além disso, contam com equipes técnicas que seguem planos e projetos, que se executados podem atender boa parte das demandas que afetam a vida da população. Um mundo maravilhoso. Tudo está ao alcance das mãos e só depende de um clique para ser executado.
Tá! Mas que modelo de gestão estamos falando? Trata-se de uma política tecnocrática. Fria, distante da vida real, incapaz de perceber as nuances e o drama humano que afeta milhares de pessoas, como numa pandemia. A tecnologia é composta de equipamentos, como os aplicativos que agilizam ações e respostas. No entanto, ela não pode definir um modelo de fazer política. A política pública de atendimento à vida das pessoas, numa cidade, para dar resultados satisfatórios, terá que ser exercida com a participação, envolvimento e apoio direto dos cidadãos. Caso contrário, poderá não dar certo.
O modelo tecnocrático da política privilegia as elites, consideradas detentoras das respostas das questões mais urgentes; em contrapartida, o cidadão é sempre deixado para trás. A arrogância da meritocracia faz pensar que quem senta na cadeira para administrar é um semideus, apto, por isso foi eleito. 
É sabedor de todas as ações a serem feitas. Este perfil está mais preocupado com a imagem e com os índices de pesquisa do que com resultados que possam transformar a cidade e mudar de fato a vida das pessoas. Um tipo de governo assim se blinda com uma elite privilegiada, assessores, conselheiros fiéis, que preferem mostrar que está tudo muito bom e muito bem, como se todos estivessem vivendo num “mar de rosas”.
Um governo deve e precisa ter “especialistas”, afinal o modelo atual de sociedade tende a ser mais complexo e, portanto, para ser bem compreendido, é necessário ter pesquisas, dados e, acima de tudo, conteúdo para embasar a formulação de planos, projetos de políticas públicas. 
No entanto, este perfil técnico para por aí. Sem ouvir e deixar participar a população que vive e habita a cidade, não se tem governo. Pode se falar em gestão de qualidade, governo 4.0 e outras tantos nomes criados, mas sem o aval dos moradores, que pagam impostos, e que de fato caminham no dia a dia e vivem na cidade, não se pode falar em gestão democrática, participativa e de resultados.
Veja o caso do restaurante transformado em projeto social. É um morador da cidade, um cidadão que não estava preocupado com o seu próprio umbigo. Aliás, estava mais preocupado com os outros do que consigo mesmo. Quando um trabalhador como este, ao ver pessoas com fome, comendo restos do lixo, transforma o seu restaurante em um projeto social, deveria ter todo apoio. Afinal, ele transformou a sua única fonte de renda em um projeto social com o nome de “almoço solidário”. 
Projeto este que sacia a fome de 700 pessoas, de segunda a sábado, com café, almoço e janta. Mas se há tantas pessoas com fome assim, o poder público não poderia ter feito a sua parte? Afinal, existe no orçamento de cada prefeitura verba pública que deve ser empregada em projetos sociais e no combate a fome e a miséria.
Veja o caso de Vitória. Tinha um restaurante popular da prefeitura, que funcionou e atendeu a população com valor mínimo. Fechou e nunca mais abriu as portas. Enquanto isso, temos o de Vila Velha, "almoço solidário', que foi criado na pandemia por um morador. E na Capital, corte de verba no atendimento às famílias em situação de rua no início deste ano. 
O curioso é que no site do governo federal a gente encontra tudo sobre restaurante popular. Mas estamos vivendo uma crise sem precedentes na História recente e nada é feito para amenizar a fome do povo. Enquanto cada um que tem o poder de implantar política pública para aplacar e gerar emprego e renda continuar a viver em torno do próprio umbigo, teremos mais e mais pessoas com fome, desempregadas e na miséria.
Os artigos assinados não traduzem necessariamente a opinião de A Gazeta.

Paulo Brandão

É bacharel em Filosofia. Com um olhar sempre atento para as ruas, reflete sobre as perspectivas de cidadania diante dos problemas mais visíveis da Grande Vitória

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