Já ouviu a expressão “estamos no século XXI, com tanta tecnologia à disposição, e ainda vivemos situações terríveis, de miséria, que remontam ao século passado”? Nesse mote evolucionista existe uma crença cega de que a tecnologia e todas as formas de conhecimento, acumuladas ao longo do tempo, por si só, garantiriam a melhoria das condições de vida, de forma igualitária.
O acesso à total qualidade de vida existe, mas para uma elite endinheirada. Para aqueles que vivem numa espécie de paraíso terrestre, numa bolha existencial, sem falta de nutrientes básicos, alimentos, vestuário, transporte, moradia e água. Os outros, que ralem para sobreviver.
Contudo, não se pode negar que a tecnologia é algo importante e necessário na vida das pessoas. As mudanças são uma constante, com o avanço da tecnologia. Isso é indiscutível. Respostas rápidas, como a produção da vacina do coronavírus, são algo extraordinário na história da ciência. No entanto, o acesso a bens e serviços e a garantia de que as pessoas viveriam mais felizes, seguras e tranquilas são uma espécie de promessa cara, feita sob medida, só para quem pode pagar.
Não se trata só de tempo; mas de avanços conquistados. Por isso, é vergonhoso, estamos no início da terceira década do século XXI, e milhares de capixabas ainda sofrem as mazelas da exclusão social, como por exemplo, com a falta de a água tratada em suas casas.
Mas por que ainda falta água na casa de muitos capixabas? Será que é por causa do verão, quando as pessoas estão de férias e consomem mais água? Mas, se for por isso, deveria faltar água para todos e não só para uma parcela dos moradores que vivem em bairros de periferia? Por que, então, os mais pobres têm que sofrer ainda mais, com a falta de água, nesta época quente do ano?
A escassez, fruto também da poluição, é resposta usual, de técnicos do setor. Quando falta água, quem mora em local mais baixo e regularizado recebe primeiro. Se sobrar, chega até os que estão distantes dos centros mais urbanizados. Não deveria ser assim, mas esta é a realidade. Afinal, o serviço tem um custo. Quem mora bem paga mais e tem acesso primeiro.
A água é escassa também devido à poluição é o mau trato dos rios. Os rios Jucu e o Santa Maria, entre outros, fontes de toda água que consumimos na Grande Vitória, sofrem poluição, erosão, ocupação irregular de suas margens e lançamento de agrotóxicos, nas áreas rurais.
E também as secas que atingiram o Espírito Santo nos anos de 2014 e 2015 mostraram que a água não é um bem infinito. A falta de água trouxe preocupações e mostrou, para o governo do Estado, a necessidade de investir mais em saneamento básico e universalizar o acesso da água tratada aos capixabas.
Mas para que isso ocorra de fato muito ainda precisa ser feito. O governo do Estado vai construir a barragem, no braço norte do rio Jucu, para garantir reserva de água para Grande Vitória. Mas as prefeituras podem regularizar os bairros, considerados clandestinos, para que a Cesan atenda com rede de água os moradores que ainda não tem acesso a esse bem tão precioso.
Enquanto isso, para os que sofrem com falta de água e moram em bairros regularizados, ou de alguma forma são mal atendidos pela Cesan, cabe recorrer a justiça para exigir seus direitos. A Defensoria Pública atende estes casos e atua na defesa do cidadão. Não dá para aceitar essa realidade triste da falta de água na Grande Vitória, para os mais pobres.
É sabida a importância dos serviços prestados pela Cesan à sociedade capixaba. O objetivo aqui é chamar a atenção para a necessidade do acesso a esse direito básico. Não há aqui em momento algum a defesa da privatização dos serviços de saneamento básico no Espirito Santo. Uma empresa concessionária do serviço público como a Cesan pode, sim, fazer mais e melhor para atender à população mais pobre e carente do Estado, com acesso a seus direitos básicos a sobrevivência, como a água tratada.