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Crônica

Vitória para principiantes, um guia apaixonado para a Ilha do Mel

Por exemplo, jamais, seja qual for o motivo, tente entender por aqui o funcionamento de uma fila típica. A legítima fila capixaba exige a pergunta: o senhor está na fila?

Públicado em 

31 ago 2021 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Anoitecer na Ilha de Vitória
Anoitecer na Ilha de Vitória Crédito: Fernando Madeira
Era 1992, estive reunido com eles pela última vez, em um livro, “Cidade Presépio”, cada qual com sua crônica sobre o tema. A modéstia me impede de dizer que fiz parte do grupo que representava “la crème de la créme” da crônica capixaba. Amei.
Ana Maria Machado, José Augusto Carvalho, Luiz Guilherme Santos Neves, Neida Lucia Moraes, Roberta Giovanotti, Edgard Rebouças, Marcos Alencar, Ronaldo Nascimento… E outros escolhidos que a memória no momento não me traz à cena. Alguém se lembra? Aqui vai parte das minhas mal traçadas linhas, naquela obra. Honrado, camaradas, pela convocação:
A primeira coisa que ouvi sobre esta cidade, disposta na Terra como um presépio, informava que o povo da ilha não tem sotaque revelador como tem outros povos brasileiros. Bem, o único a não ter sotaque não seria, então, um sotaque especial?
Observe, principiante, que a primeira marca fundamental concentra-se em força íntima em seus cidadãos, os capixabas. E aí está o grande mistério desta fé. Se todos os habitantes da ilha resolvessem mudar-se para a Groelândia, por exemplo, ali seria criada uma Vitória tal como a conhecemos.
Por isso, caro principiante, depois de vasta e até dolorosa experiência, como forasteiro, posso ajudá-lo a compreender este povo pleno de amor, que por prudência não está à mostra, nem à deriva. Isso tudo paira aferrolhado dentro dos indecifráveis corações. Logo que cheguei, as pessoas jovens se tratavam de “camarada”. Lembram?
Agora não se chama mais assim, a não ser nas rodas fechadas dos bares e clubes, cujo ingresso é tão capixaba quanto o humor, a moqueca e a ironia. A palavra “camarada” pode ter infinitos significados: amigo, companheiro, cara, e uma simples interjeição para chamar a atenção. Além de se aplicar a todas as pessoas.
Porque, note, meu caro, que aquilo que determina os significados das palavras em capixabês é a milimétrica extinção dos modelos de paixões enrolados nela. Esta linguagem, é claro, nada tem a ver com o português.
Quando arrivei por aqui na década de 1960, pairavam no vocabulário capixaba legítimo palavras estranhas, mas alguns hão de lembrar. Furrupa, para significar festa domiciliar. Cabrunco, tratamento de intimidade entre os homens. Ponga, para carona. Com o tempo, perdi de ouvido essas insólitas expressões típicas da capixabice marota.
A universalização do linguajar sufocou essas e outras típicas expressões da comunicação, cuja bandeira tem a insólita coloração de azul e rosa.
Parece que não, mas faz-se mister conhecer os usos e costumes da Ilha, ter em mãos um manual de sobrevivência. Sem ele, o dilúvio. Por exemplo, jamais, seja qual for o motivo, tente entender por aqui o funcionamento de uma fila típica. A legítima fila capixaba exige a pergunta: o senhor está na fila?
Aliás, a fila não foi feita para organizar nada, necessariamente. Na maioria dos casos, funciona como ponto de encontro, principalmente, bem na porta do elevador. Se estiver ao volante, não caia na estreita ideia de dar seta indicando para onde pretende ir. Ninguém está interessado em sua vida, e muito menos em seu destino. A menos que seja um amigo. Este conceito-chave, da amizade, é fundamental para a sobrevivência nesta Ilha.
Isso acontece em todas as cidades do Estado, mas Vitória é a Capital. Preste atenção no trânsito. Virá que a fila da direita corre muito mais rápido do que a da esquerda. Não tente mudar ou criticar. É assim porque é, e nada muda um estilo capixaba. Muito menos você, estrangeiro.
Poderia passar anos tentando explicar o inexplicável que habita nessa alma gentil de um povo-família que aprendi a amar e admirar. Muitas vezes, com o olhar ou o coração.
Gente, tenho duas filhas e três netos com sangue capixaba.
Da gema.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, nasceu na Vila Rubim.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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