Há décadas, passou nas telas brasileiras uma pérola do cinema denominada “O Incrível Exército de Brancaleone”, de Mario Monicelli, que centrava em um pequenino grupo político medieval, completamente esfarrapado de tudo que a senhora já viu.
Enfocava as injustiças, pregava a lei e a ordem na Itália da Idade Média, invadida pela peste negra. Na verdade, era um exército que mais parecia uma trupe de circo mambembe. Cenas inesquecíveis. Quem não viu, que veja o hino perpétuo da sutileza inteligente.
Já escrevi, nestas mal traçadas, a opinião de Tom Jobim segundo a qual ele seria o único compositor a falar de alegria e exaltação. “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça”. Os demais historicamente trazem como fundo afetivo, a tragédia, a maioria das vezes falando de suas dores.
Tanto nos cabarés da Lapa, nos casebres dos morros, o bravo povo brasileiro lança seu grito. À maneira dos escravos e demais sofredores, os sambas, os sambas-enredo, descem para mostrar a força e a fraqueza até o dia em que, como compôs Wilson das Neves, “no dia em que o morro descer e não for carnaval...”.
A carnavalização da dor e outras misérias é a fórmula com a qual o povo dá seu recado e até faz graça com o sofrer. E não é de hoje não. Se a senhora reparar bem, todas as letras em tom de humor ou de dor denunciam os velhos e atuais descasos, embutidos ou grifados nas letras das escolas de samba e nos botequins da Lapa, por exemplo, mobilizando a torcida nas arquibancadas do Sambódromo ou semelhanças em todo o país. O carnaval como hino contra a fome faz mais falta que um prato de feijão.
As eternas marchinhas, seus refrães fáceis de decorar, eram ensaiadas meses antes do fevereiro oficial. “O Brasil tem muito doutor, muito funcionário, muita professora. Se eu fosse o Getúlio, eu mandava metade dessa gente pra lavoura”.
Essa, do tempo de Getúlio Vargas, denunciava o funcionalismo privilegiado e outras “mamatas” que entravam pelas portas dos fundos das repartições, os cabos eleitorais do seu “Gegê”. Armando Cavalcanti e Klécius Caldas fizeram uma marchinha esclarecendo o sistema de controle das funções: “Maria Candelária é alta funcionária, saltou de paraquedas e caiu na letra ‘Ó’. Oh, Oh, Oh”.
“Levanta meio-dia, coitada da Maria, trabalha até fazer dó. Oh, Oh, Oh, Oh. A uma, vai ao dentista, às duas, vai ao Café, às três, vai à modista, às quatro, assina o ponto e dá no pé, que grande vigarista que ela é”.
Juca Chaves com sua genialidade pegava no pé do Juscelino e nas suas medidas absurdas. Em “Presidente Bossa Nova” revelava com a voz anasalada a saga do popularíssimo JK, que, não se pode negar, inventou Brasília, sem a menor necessidade – até hoje – e se afastou dos eleitores politizados do Rio de Janeiro e outros. Ninguém gosta de ficar lá, e o expediente da cidade vai de terça a quinta. E olhe lá.
O que há de fazer agora se tudo o que se decreta ou legaliza é na base do escondidinho. Por exemplo, é permitido o estranho “direito” de mentir na Comissão Parlamentar de Inquérito, quando se é culpado. Respeitável público, que legislação é essa?
Vamos à música. Um sucesso dos anos 50 denunciava os métodos com o qual se media a qualificação dos trabalhadores: “Lá vai o cordão dos puxa-sacos, gritando vivas pros seus maiorais. Quem está na frente nem quer ver os detrás, e o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais...”.
Não há no mundo quem melhor homenageie seu herói, seja ele quem for, do que uma ala de compositores de escola de samba. Especialmente no Rio. Se não fosse a melodia eleita na quadra da Escola, o ritmo com as paradinhas sustentando as fantasias e o canto enlouquecendo a torcida, não haveria a alegria única do carnaval.
A torcida participa, e muito, cantando, sambando e torcendo para a sua escola ganhar. Ganhar. Eis aqui um verbo que se conhece nas quadras após o término da última ala, no dia seguinte.
Em um dos desfiles criado por Joãosinho Trinta – um dos melhores – inventou-se uma imensa estátua alegórica representando Cristo. Pra quê? Os gênios da censura, a mando do golpe de Estado que havia invadido o próprio país, proibiram. A história se repete.
Toneladas de idiotas impedindo a alegoria criativa de um gênio popular. Mostrando a que veio, Joãosinho cobriu a imagem com um pano preto e arrancou aplausos que não paravam .E, como ocorre em todas as ditaduras, mal acabou o desfile sufocado, o povo, especialmente os garis, arrancou a cortina que cobria o Cristo e sambou até de madrugada.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, acha que é hora de fazer seu samba.