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Crônica

Ser médico é olhar encantado para o próximo

A pior doença do mundo é a má medicina. Profissional médico tem que ser bom, bom de bondade

Publicado em 10 de Outubro de 2023 às 01:30

Públicado em 

10 out 2023 às 01:30
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Menino, nascido e morando em Manaus, concebia que o fim do mundo já acontecera em forma de tragédia. Meu irmão mais velho, Carlos Nelson, agonizava, ainda bebê, nos braços de minha mãe, Mariucha, que implorava na porta gradeada da casa do seu médico, atendimento de emergência, no auge da indiferença do doutor.
Apareceu na escada do jardim da casa, olhou a cena de dor. “Vá pro hospital”, foi o tratamento dispensado. Anos depois, outro médico, atendida uma crise de eritroblastose fetal, em pleno hospital, Maria da Graça, filha mais nova da família. Carlos Nelson foi vítima de indiferença, e minha irmã de incompetência. Em ambos os casos, as duas piores doenças que existem.
Duas mortes absurdas. Ficamos eu e Geraldo Sergio, meu irmão, para contar a história. Nossos pais sofreram a vida inteira, toda a angústia da tragédia. A pior doença do mundo é a má medicina. Profissional médico tem que ser bom, bom de bondade. Alguns chamam isso de vocação, vocare, chamado de Deus.
Não tenho certeza, mas isso determinou a nossa mudança para o Rio de Janeiro e, depois, Vitória. Por que Vitória? Mamãe dizia que era por conta do nome da cidade.
- Vamos nos mudar, é uma ilha paradisíaca.
Nenhum de nós havia estado na Capital do Espírito Santo, mas ela não errava. Chegamos e amamos a cidade, merecidamente aclamada por Ronaldo Nascimento, onde escrevia em seus livros sobre a alma da ilha, falava do perfume e das flores capixabas.
Então.
Pessoalmente, carrego as dores da morte dos meus irmãos, erro e displicência médica, quando mais precisavam. Creio que com isso internalizei alguma coisa. Uma força interna, desde a adolescência, me empurrava para fazer parte da medicina e ajudar no tipo de atenção a ser prestada ao próximo.
Médico e paciente
Na medicina sempre há muito o que fazer de bom e de mágico Crédito: Freepik
Então.
Certa vez, estava em meu consultório no Centro da Praia Shopping, conversando com os neurônios alheios, quando bateu à porta Renata Valente, que havia conhecido e convivido muitos anos antes.
Era, e continua sendo, uma pessoa excepcional, de extrema bondade. Havia muito tempo que não a encontrava. Aqui e ali, captava uma notícia. Voltou batendo à porta, depois de subir 10 andares de escada às pressas.
- Paulo, tem uma moça lá na calçada que está tendo uma convulsão atrás da outra, não sei o que fazer - disse, aflita.
Descemos correndo pela escada. Nesse tipo de emergência, ninguém pensa em elevador. Peguei algum medicamento, acho.
Meu inconsciente não podia deixar de ligar a morte dos meus irmãos  ao sofrimento daquela pessoa em situação de rua.
Chegamos. Renata e eu estávamos mais ofegantes que a então paciente.
Ela estava “acordando” do segundo ou terceiro surto. Uma torcida imensa fazia o de sempre, atrapalhava com os palpites. Um gênio da imaginação - sempre aparece - queria que a moça bebesse água ao mesmo tempo em que tossia. Tomei as rédeas, a abracei, e ela me olhou com uns olhos que eu resolvi considerar uma resposta pelo ocorrido na minha infância com os manos. A paciente me olhou, eu tentei lançar o olhar encantado materno, como definiu Donald Winnicott. Ela deixou cair uma lágrima que não era de dor, devia ser de amor e gratidão, dois elementos indispensáveis na delicadeza na relação médico-paciente.
Renata estava feliz com o desfecho, lembro bem. Eu recompensado.
Na medicina sempre há muito o que fazer de bom e de mágico.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, acha que já passou da hora de Deus salvar o Amazonas.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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