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Crônica

No reino de Macunaíma, em cima e embaixo

Não há na verdade no reinado partidos de direita ou esquerda, e sim de cima e debaixo que se revezam constantemente entre si. A plebe rude é usada para votar e ajudar na fantasia

Publicado em 19 de Setembro de 2023 às 00:20

Públicado em 

19 set 2023 às 00:20
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Cena de
Cena de "Macunaíma", com Grande Otelo Crédito: Arquivo
Não é fácil entender o bravo povo brasileiro, o que inclui diferentes categorias, dirigentes de um modo geral, bandidos comuns, incomuns, torcedores, e last but not least a culpa generalizada que as almas masculinas sentem em relação às mulheres.
De repente aparece o velho truque da lei, raramente entendida, muito menos cumprida. Não há uma lei específica para tratar das feridas masculinas, mas elas existem e às vezes sangram.
Por sua natureza narcísica e otimista, os homens são essencialmente culpados, embora tenha sido Eva que deu a maçã sedutora para Adão.
Seria por isso que cultivam a vingança sempre junto com o pecado original, embora eu nunca tenha entendido muito bem isso. Mas como militante da Juventude Estudantil Católica, pensei, li e repensei os códigos do catolicismo.
Só para citar uma ideia. Em caso de questões que envolvem homens e mulheres, com diferentes interesses, por exemplo, não deveria haver um fórum para discussão sobre o plano legal que trate disso? Algo mais delicadamente elaborado e cuidadoso na legislação.
Então.
A senhora aí me diga, qual o maior desejo dos apaixonados pelo futebol na próxima Copa do Mundo? Está longe de ser a conquista do próximo campeonato. Trata-se, na verdade, da intenção incontida e raivosa de vencer a seleção da Alemanha por 7 a 1 (ninguém esqueceu da derrota pelo mesmo placar). Qualquer outro resultado não serve, porque tem que carregar no inconsciente, fervilhando, a anulação e a humilhação a ser imposta aos ousados nórdicos.
Então.
Nossa República nunca chegou a ser instaurada com força, vivemos nos moldes imperiais em toda a sua essência. Não veio com a Independência. É assim que com a nomenclatura republicana pairam no poder reis, duques, príncipes, rainhas, duquesas... Pelé nunca seria chamado de outra coisa que não fosse rei e Marta de rainha.
Não ficam desamparados jamais os pertencentes à Corte, independentemente das leis. Não há na verdade no reinado partidos de direita ou esquerda, e sim de cima e debaixo que se revezam constantemente entre si. A plebe rude é usada para votar e ajudar na fantasia.
Os membros da Coroa, em todas as instâncias, recebem muito e literalmente fazem o que querem, com questionável competência. Não estão preocupados com o povo, isso desde a invenção do Brasil, no dizer de Mário de Andrade, autor da celebérrima joia literária, Macunaíma
Dorian Gray, meu cão vira-lata, quer ser chamado de grão duque

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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