*Leonardo Mendes
Há noventa anos, Macunaíma levava o romance brasileiro a se embrenhar por uma língua tão exuberante quanto o “fundo do mato-virgem”, onde nasce o herói sem caráter, feio, do ventre de uma índia. E ainda depois de tanto tempo impressiona a relevância de uma obra literária para a compreensão do Brasil, talvez um dos motivos seja sua raiz no terreno do Modernismo de 22, que parece realmente nunca terminar, parafraseando o título do livro que Mário Augusto Gonçalves publicou a esse respeito em 2012.
O exuberante encontro do “falar brasileiro” com a escrita lusíada, no entanto, nunca se entregou facilmente ao deleite do leitor. Seria o romance feio como o herói? As palavras e a sintaxe coloquiais causam estranheza e parecem ser empregadas para gerar um efeito similar àquele que alguém criado no curto-circuito da cidade sentiria ao entrar no coração da Floresta Amazônica: medo, estranheza e estarrecimento diante de uma paisagem selvagem.
As palavras e expressões aparecem no romance de Mário de Andrade como a densa vegetação que intimida, amedronta e abriga ruídos cuja origem ou destino muitas vezes são totalmente desconhecidos, e por isso podem gerar certo desprazer e repulsa, contrários à fluidez da leitura. O leitor tem de brincar de explorador corajoso mata adentro, quer dizer, livro adentro; aos poucos vendo uma e outra imagem se repetir se familiarizar se tornar conhecida.
Conhecer, reconhecer e se familiarizar. É isso que ocorre com o desenrolar das aventuras que levam Macunaíma do Império do Mato Virgem à civilização, representada pela província de São Paulo, que já no início do século XX se preparava para dominar o cenário econômico nacional e impor sua hegemonia.
A Semana de Arte Moderna, que tem em Mario de Andrade uma de suas principais figuras, está profundamente ligada a esse projeto de modernização, e com ele partilha alguns de seus custos e lucros, tal como o de compreender o que se fez antes como um passo débil em direção à maturidade ou à maioridade. É em São Paulo que Macunaíma passa da pré-história para a história, do inconsciente à consciência, mas apenas depois de curtir sua noite lendária.
A luz do sol clareia o dia em que o herói acorda confuso com os ruídos da cidade, percebidos como bichos, mitos e vegetação nativa:
“Os tamanduás os boitatás as inajás de curuatás de fumo, em vez eram caminhões bondes autobondes anúncios-luminosos [...] faróis [...] postes chaminés... Eram máquinas e tudo na cidade era só máquina! O herói aprendendo calado[...]. Voltava a ficar imóvel escutando assuntando maquinando numa cisma assombrada”.
À noite as luzes da cidade, seus faróis e anúncios luminosos, misturam-se aos bondes e juntos compõem uma figura: o boitatá, ou melhor, os boitatás que se multiplicam nas retinas do retinto herói.
A luz do dia mostra a Macunaíma um outro encanto, o da máquina, que tão logo a descobre passa a fazer parte de seu próprio comportamento – fica “maquinando numa cisma”... De sua maquinaria ele tira a ideia de usar a máquina para ludibriar o gigante Paimã, na tentativa de recuperar seu talismã.
Macunaíma revive as aventuras de Ulisses contra o ciclope Polifemo; no entanto, se o herói grego se apega à sonoridade de seu nome para enganar os deuses, o herói antropófago se traveste com o ruge, a meia de seda, a cinta e se transforma em uma francesa. Os artifícios femininos são tomados por máquinas na metamorfose do herói, e é como francesa que Macunaíma quase poca os miolos perto do município de Serra-ES.
A interpretação do país pela perspectiva do nativo que resulta no icônico romance de Mário comprova a própria tese antropófaga, pois sua perpetuação no imaginário e sua penetração nas casas brasileiras é resultado da digestão tropicalista, mais de 50 anos depois, apoiada na TV e no rádio.
Macunaíma inverte a lógica da escala de valores colonial para desenhar no horizonte a independência nacional, um Brasil que aprenda a responder astutamente às acusações do vice de Bolsonaro: “- ai, que preguiça”!
*Autor é doutor em Ciência da Literatura/ Teoria Literária pela UFRJ.