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Crônica

Que bobagem! De inteligente neste livro não há nada

O próprio Freud não se considerava psicanalista, mas um ajudante do entendimento entre ele e as pessoas que o procuravam para falar da palavra. O falar para mim é o sexto sentido

Públicado em 

12 set 2023 às 00:40
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Com esse título circula pelo Brasil um livro da microbiologista Natalia Pasternak e do jornalista científico Carlos Orsi discorrendo sobre a importância, entre outros, de Sigmund Freud. (Confesso que nunca soube o que vem a ser jornalista científico, com o que se intitulam). A primeira bobagem.
Chegam à convicção de que ele é uma fraude e publicou mentiras. O casal denuncia no bolo outros ícones do pensamento. Eu, data venia, sou jornalista e médico psicanalista. Não lhes ocorreu que o próprio Freud não se considerava psicanalista, mas um ajudante do entendimento entre ele e as pessoas que o procuravam para falar da palavra. O falar para mim é o sexto sentido.
As deduções de Freud obtiveram por sua verdade sentida o apoio dos psicanalistas que viam na relação com o outro um espaço de compreensão até então inconsciente. Desvendar o mistério da fé, que pairava entre uma pessoa que falava ou calava pelos sintomas, através de um instrumento simbólico, a interpretação psicanalítica, foi a grande descoberta da intelectualidade do século XIX.
Claro que existem outros modos e maneiras de lidar com esse tipo de mistério, mas o livro lançado e esgotado no Brasil - que horror - tem como argumento as mais ingênuas calúnias sobre os ícones do corte epistemológico iniciado por Freud.
Então, minha senhora, segundo os autoproclamados gênios não se poderia contar com a estruturação teórica da Pessoa, como a formulação do Ego, Id e Superego. Ou os óbvios Mecanismos de Defesa que tanto estruturam a compreensão das dores e dissabores trazidos às sessões pelos enigmas do cotidiano, espontaneamente.
Pregam o nada como tudo. (Entrego a vocês, pacientes leitores, o que tange à psicanálise na minha leitura transformada em uma estúpida esculhambação em nome de um saber sem sabedoria). Em nome dessa espontaneidade irresponsável, ameaçam, inclusive, uma segunda edição.
A psicanálise como não tem o propósito de ensinar, ajuda, quando ajuda, um ao outro. Supõe-se que ajuda a lida operante do conteúdo do inconsciente, a parte ainda não consciente no campo formado entre analista e angustiados, que revela-se em vários níveis no espaço virtual de ambos os atores, cliente e terapeuta.
Então.
De inteligente na obra do casal não há nada. Absolutamente nada no livro que propusesse uma constituição do ser, nos citados queridinhos da ciência por eles, que usam como medida de verdade a “ciência comprovada científicamente”. E o que é isso?
Talvez tenhamos que compreender a “ciência de Freud”, por exemplo, e o inconsciente à moda de como é vista a alma pela religião. Outro dia fui à missa, era uma quinta-feira, na igreja da minha aldeia Santa Rita de Cássia, onde o padre pregava, em nome de Deus, que também não passaria pelo rigor da “verdade científica”, assim como é vista pelos autores do livro. Mas com certeza não há em toda a Igreja Católica a negação da criação de Freud.
Por exemplo, um homem amar uma mulher, e vice-versa, não é suficiente para um casamento, disse o padre no sermão, mesmo que passe pela verdade das pessoas. O amor ao próximo é o elemento fundamental que não pertence apenas aquela relação ou a outra qualquer. Mas ao amor fundamental que não aparece em nenhum gesto, assim como o inconsciente, como viu Freud, onde se coloca o invisível e o pleno. A arte de analisar e ser analisada envolve clarificações retidas no inconsciente de cada um. Não é uma reza qualquer, assim como o amor dos relacionamentos não é um compromisso qualquer.
Sigmund Freud
Sigmund Freud Crédito: Arquivo
O gracioso casal tem a clara intenção de vender sua obra e tratar com galhofa as coisas essenciais da fé científica. Leiam, é divertido, mas é muito mais incoerente que qualquer crítica que muitas pessoas já fazem - fizeram - há anos da obra dos benfeitores da humanidade.
O ritual católico, assim como outros, mostra a crença ou a fé como instrumento de interagir, interamar o outro, que por conta própria entra com culpa e se abastece com a força infinita do Pai, com o perdão.
Não quero dizer que a psicanálise seja uma religião, longe disso, mas para ser tratada como tal, deve estar abastecida da crença e da bondade. Não se pode ajudar o outro, se não puder ser bom.
Tentar mostrar uma inteligência superior sem sentido ou necessidade, como fizeram no best-seller sem rumo ou direção, é bobagem.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, late bobagens.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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