Em seus últimos anos de vida, Freud escreveu um de seus ensaios mais conhecidos, “O Mal-Estar na Cultura”, publicado em 1930. Nele, o pai da psicanálise revela seu desalento com o ser humano, e isso se deveu, sobretudo, ao crescimento do nazismo na Áustria e na Alemanha e à eleição de Hitler para o parlamento alemão.
Nesse ensaio, Freud demonstra sua consternação com o animal humano em guerra com a cultura e consigo mesmo. Ele tinha vivido os horrores da I Guerra Mundial e já pressentia a II, pois a serpente nazifascista estava em gestação, ou melhor, já tinha sido germinada. Esse ensaio de Freud vem à baila nos dias atuais, diante dos horrores das diferentes guerras no mundo, Ucrânia, Somália, Síria, Iêmen, Sudão, e muitas outras, bem como a III Guerra Mundial que se antevê com a China e Rússia; Índia, talvez, se unindo contra EUA, Inglaterra, Europa (Otan). Se isso efetivamente ocorrer, pode ser a destruição da humanidade, ou parte dela.
Em “O Mal-Estar na Cultura”, Freud questiona o princípio do “amar ao próximo como a ti mesmo”, pois os seres humanos “são criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade”. Nesse ensaio, ele retoma o axioma latino “homo homini lupus”, “o homem é o lobo do homem”, citado por Plauto, visto que “em circunstâncias que lhe são favoráveis, quando as forças mentais contrárias que normalmente a inibem se encontram fora de ação, ela também se manifesta espontaneamente e revela o homem como uma besta selvagem, a quem a consideração para com a sua própria espécie é algo estranho”. Diz ainda: “A existência da inclinação para a agressão, que podemos destacar em nós mesmos e supor com justiça que ela está presente nos outros, constitui o fator que perturba nossos relacionamentos com o nosso próximo e força a civilização a um tão elevado dispêndio de energia”.
Esse ensaio de Freud me veio à mente diante dos fatos que vejo estampados nos jornais de hoje: “Inglês e indigenista foram esquartejados e enterrados”. Esse crime bárbaro do jornalista inglês Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira no Vale do Javari vem juntar-se a tantos outros cometidos na Amazônia, como os assassinatos da missionária americana Dorothy Stang, em 2005, do ambientalista Chico Mendes, em 1988, de Maxciel Pereira dos Santos, colaborador da Funai, em 2019, da família do ambientalista José Gomes, assassinada em janeiro deste ano, de vinte e oito indígenas mortos no ano passado, dentre os quais Paulo Paulino Guajajara, no Maranhão.
Geralmente, essas mortes estão associadas a conflitos fundiários entre garimpeiros, povos indígenas e extratores de madeira ilegal. Outro fator seria a presença de facções de crime organizado, em constante disputa pelas rotas de tráfico de drogas. O Brasil figura atualmente entre os líderes de um ranking elaborado pela ONG Global Witness que analisa os lugares mais perigosos para a atuação de defensores da terra e do meio ambiente. No ano passado, o país ocupou a quarta posição na lista em quantidade de ativistas da área vítimas de assassinatos.
Em mais uma de suas insanidades, nosso ignóbil presidente culpa os mortos pelo seu próprio assassinato. Acusou o jornalista inglês de ser mal visto na região do Javari, pelas matérias que fazia denunciando os crimes ambientais no local e de os dois terem se aventurado ou excursionado por uma região onde não deveriam estar. Que a morte desses dois ambientalistas e a de todos os outros que foram assassinados em defesa do meio ambiente seja acrescida à extensa lista de culpas desse genocida. Que o sangue derramado de Dom e Bruno ajude a conscientizar o povo brasileiro a tirar do poder esse ser hediondo!