Há 100 anos, Freud publicava um de seus mais comentados textos, “O Infamiliar”. “Das Unheimliche” já foi vertido mundo afora como “O Estranho”, “O Inquietante”, “A Inquietante Estranheza”, “O Inquietante Familiar”, “O Sinistro”, “O Ominoso”, “O Perturbador”. As várias traduções deslindam uma evidência: a dificuldade de se dar nome, em qualquer língua, a um sentir desconcertante, oriundo do nocaute de nossa razão por uma experiência desorientadora. Um estudo desses sentires de mal-estar é o que propõe Freud.
O “pai da Psicanálise” localiza a sua “teoria das qualidades do sentir” no campo da estética, ampliando-o, para isso, do cerco da “doutrina do belo” para o limbo dos sentires “contraditórios, repugnantes e penosos” nos movimentos“de perceber, captar pessoa, coisa ou acontecimento”.
Reportando que o “infamiliar seria tudo o que deveria permanecer em segredo, oculto, mas que veio à tona”, conclui: “O infamiliar é, de certa forma, um tipo de familiar”. Mas “como é possível, sob quais condições, o que é íntimo se tornar infamiliar, aterrorizante”?
Da densa obra, pode-se dizer que o sentir infamiliar tem duas condições e duas situações. Todo infamiliar 1) deriva de retornos de afetos recalcados ou de 2) abalos em convicções acerca de causalidades da existência, dúvidas referidas à concepção animista do mundo, comum a nossos ancestrais, mas também constante da infância, como a ideia da onipotência do pensamento (força da mente, pensou-aconteceu etc.).
Mas nem todo retorno de recalcado ou hesitação intelectual acerca da objetividade do existir leva à infamiliaridade. Isso porque há dois tipos de experiência do sentir infamiliar, e com intensidades diversas: a da 1) vivência e a da 2) ficção artística.
A experiência factual de retornos de recalcados ou de quebra de certezas racionais sobre as causações da vida é mais rara, apesar de ser mais intensa em sua infamiliaridade. A fruição artística de temas referidos a conteúdos recalcados ou a dilemas sobre a dinâmica existencial oferece mais oportunidades de estranhamentos, apesar de estes serem menos intensos, especialmente nas ficções.
Agendada pelo centenário de “O Infamiliar”, a Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória promove o IV Psicanálise e Arte – A Inquietante Estranheza –, dias 29 e 30 próximos. Mas o que teria toda essa discussão a ver com o nosso ordinário cotidiano? “Sobre a solidão, o silêncio e a escuridão, nada podemos dizer a não ser que esses são realmente os fatores ligados à angústia infantil, que não desaparece por completo na maioria das pessoas”, escreveu Freud.
Em tempos de tantos medos, pânicos, angústias, repetições paralisantes, desânimos, cansaços – desassossegos que remetem ao nosso estado de desamparo estrutural, cuja sensação é cada vez mais ativada pela cultura de desamor, ódio, intolerância, destruição e despudor –, talvez seja inadiável encarar nossos “fantasmas” domésticos e suas aparições infamiliares.
Trata-se de discutir a estética de enigmáticos reencontros desconcertantes. Aqueles com pensamentos, imagens e recordações recalcados e também aqueles com os recorrentes assaltos de incertezas que o nonsense existencial insiste impor a quem se imagina senhor do mundo, mas que não governa sequer a sua própria “casa” e existe mesmo onde não se pensa.
Trata-se de investigar os sentires de quem, por mais onipotente que se veja, apenas se estranha continuamente ao ser lembrado de que sua matéria-prima é carne temperada com pura angústia oriunda do vazio amedrontador e opaco em que mergulhamos aos chegarmos à luz. Vazio que se teima esquecer, para se persistir na vida. Mas que insiste – infamiliarmente!
No “infamiliar da ficção”, ecoemos Pessoa, que poetizou suas infamiliaridades com vários heterônimos, os seus “conhecidos inexistentes”: “Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?”. Talvez, apenas sentires infamiliares, amalgamados lá no berço do desamparo humano, mas tão despertados na obscuridade deste desumano, demasiadamente desumano hoje.