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Crônica

As ideias secretas de Dorian Gray, o cão

Considero o Dorian um ser e desconfio que sua depressão que vaivém o obriga a torcer, como coube a mim, pelo América do Rio, embora não me tenha dito isso diretamente. Ninguém confessa essas coisas

Públicado em 

05 set 2023 às 00:40
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Resolvo passear às tardinhas pelas ruas da Praia do Canto. Quase todo mundo arrasta um cão, coleira adiante. Segundo Dorian Gray, meu cão vira-lata, nenhum animal de estimação sente-se amado, porque o desejo secreto dos donos é abolir sua natureza.
Ele submete-se à minha tutela, porque nenhum canino tem verdadeiramente para onde ir, não existe nem sequer uma raça que seja feliz renunciando à sua identidade. Um cão só se sente autêntico quando morde. Eles se acham com direito às suas vontades e latidos (os gatos também).
A vontade política do meu cachorro Dorian é colocar uma coleira em mim e juntar-se à cadela Matilde, que mora defronte de casa, para fazer amor. Diz que uma verdadeira raça não vive de lamber o dono, porque se basta.
Fico de olho no safado e cito exemplos desanimadores. Dorian, você viu o que aconteceu com Zelensky, que quer tirar a coleira de seu proprietário, o Putin, colocando o mundo inteiro em guerra?
A bela Rachel, comparsa antiga, vive sob as ordens de uma gata velha e assanhada, que se esfrega em todo mundo, e não faz nada sem pedir permissão à Chloé, caso contrário, a felina, que se acha, faz coisas horrorosas.
Já Dorian, intelectual e independente, leitor de Eça de Queiroz, diz que o escritor lusitano compartilhou residência com uma gata inglesa, a Pussy, que falava, dizem, português e tinha sacadas filosóficas.
Considero o Dorian um ser e desconfio que sua depressão que vaivém o obriga a torcer, como coube a mim, pelo América do Rio, embora não me tenha dito isso diretamente. Ninguém confessa essas coisas.
O vira-lata jamais se submeteria a ir comigo a um restaurante encontrar os amigos da Turma do Bacco, muito menos encoleirado. Fica em casa assistindo na TV o que o ex-presidente e seu séquito faz, ou deixa de fazer, com as famosas joias presenteadas mundo afora. Difícil lidar com isso: o assunto é chulo.
Cão
Focinho de cachorro Crédito: Pixabay
Eu me contento com o meu relógio Mido, folheado a ouro, que conservo desde a adolescência, e não foi presente de nenhum governo estrangeiro, mas amor de pai, no dia do meu aniversário. Os colegas do ginásio para testar perguntavam: “Já foi com o Mido n’água?” Pura inveja.
Marca hora, dia do mês e da semana, não tendo atrasado ou adiantado nestes anos todos uma única vez.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, diz gostar da volta à luta.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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