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Crônica

Não é mole escrever sobre o grotesco do cotidiano

Extremamente banal e necessariamente profundo, como um poço mágico que não se sabe onde começa ou termina

Públicado em 

18 jul 2023 às 00:20
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Não é fácil. Se é bom ou ruim, é outra coisa, mas não é mole escrever sobre o grotesco do cotidiano. Já basta o próprio. Extremamente banal e necessariamente profundo, como um poço mágico que não se sabe onde começa ou termina. Aliás, não começa, nem termina, feito esse escrito aqui. Certa feita, o editor me fez um convite aparentemente simples: uma palestra sobre como elaborar uma crônica. Tratava-se de uma exposição para alunos jovens sobre as minhas táticas e técnicas que abordavam o estilo.
Fiquei com medo de passar por uma turma de alunos o que para mim ainda era uma ilha de mistério em que as palavras, as coisas, podem adquirir o significado que acharem ou que desejarariam achar.
É uma narrativa? São apostos que cobrem de significados o que ousamos escrever para o respeitável público. Quando comecei a ler crônicas de Fernando Sabino; Fernando Pessoa; Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta; Carlos Drummond de Andrade, Dinah Cavalvanti, que gostosura; o capixaba Rubem Braga; Ziraldo,  Henrique Filho, Henfil,  Zélio, e uma poesia sem fim. Perdoem os que não foram lembrados agora.
Rubem ganhou reconhecimento nacional com a crônica, que ajudou a consolidar como gênero literário
Rubem Braga  ganhou reconhecimento nacional com a crônica, que ajudou a consolidar como gênero literário Crédito: Divulgação/ PMCI
Essa turminha originou dezenas de edições e a rapaziada que não era disso se agoniava e repoduzia sob forma de pequenos espetáculos que foam crescendo, até virarem filmes, livros de capa grossa, os mais variados e retumbantes roteiros.
O espetáculo teatral e cinematográfico, especialmente no Brasil, e as peças teatrais sucessos de hoje devem a esses poetas e suas geniais metáforas. Muitos desses personagens originaram através de suas historinhas roteiros brilhantes e até muitas vezes trágicos: a Bela e a Fera, por exemplo. Em uma época em que Walt Disney achou-se dono dos sorrisos das crianças, explode através da crônica a obra nacional. Dizia-se que os heróis como Capitão Marvel, Super-Homem, Batman, Homem-Aranha e muitos outros eram nossos aliados para fortalecer o combate aos nazistas, pelo menos no imaginário.
As imagens e os heróis da Segunda Guerra permanecem nas telas corações e mentes e até hoje fazem pulsar os corações e as melodias estrondorosas.
Não há como esconder as fardas exuberantes militares de tudo quanto é canto. Daí os filmes de guerra, os futurólogos a defender a humanidade. Mesmo humanizadas as crônicas do heroísmo rendem, por exemplo, valentias de Indiana Jones. Voar à lua, andar de disco-voador e foguetes era uma mágica que havia nascido das figurinhas e seus verdadeiros heróis.
Voar, qualquer um voa. Essa frase dá até para intitular os enredos das nossas escolas de samba. A mágica é o veículo do amor, e isso fica claro nas bancas de jornais.
Viu leitor, croniquei.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, acha que pode voar.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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