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Crônica

Não há amor sozinho

Acho que nunca tive a liberdade que precisava para amá-la, para isso precisaria muito mais do que eu sozinho. Nada existe sozinho, só eu. E digamos, estou relativamente satisfeito, o que não quer dizer feliz

Públicado em 

01 ago 2023 às 00:10
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Coração, amor, romance
Amor Crédito: Pexels | Pixabay
É linda mesmo, não sei exatamente onde. Ah, se eu soubesse que era assim, eu não deixava ela se separar de mim, desse jeito não deixava. Acostumado a avaliar sintomas, não via razão para afastar-se quilômetros, estando ela ao meu lado no mesmo barco, para lançar ao mar uma, acho eu, incoerência. Outras vezes o contrário, quem compreende os contrários...
Nunca conversamos uma única vez, parece mentira. A não ser sobre coisas e mais coisas. Muitas vezes queria falar sobre nós, mas só o silêncio das coisas falava. Acho que nunca tive a liberdade que precisava para amá-la, para isso precisaria muito mais do que eu sozinho. Nada existe sozinho, só eu. E digamos, estou relativamente satisfeito, o que não quer dizer feliz.
Jamais me esquecerei dela em nossa aventura amazônica, nosso barco pelas entranhas do Rio Negro e Solimões, suas águas que não se misturam, quem sabe feito nós. Fomos dar uma vez em um hotel flutuante bem, mas bem mesmo no meio da mata. Chegamos a uma tribo e demos de cara com uma dança, a índia lindíssima embalava seu filho no colo, entrei no meio dos tambores.
No mesmo dia navegamos até Manaus, cidade onde a minha avó Alice concebeu 12 filhos, entre eles Aderson, meu pai. A festa de carnaval, da mais alta burguesia, ela de índia e eu de Zorro, só tocava música baiana, como o resto do Brasil. Nos rendemos e voltamos, como sempre sem dizer uma palavra. Dois dias depois pegamos o avião da Varig e estávamos em Vitória.
Tenho muitos amigos em Vitória, qualquer dia os convido para navegar no rio Solimões. Ontem reencontrei para uma conversa emocionada Romeu Correia de Araújo, amigo da adolescência, de sempre. Rodamos pelas praias traçando planos de saúde e de prazer, não existe um sem o outro. Na padaria, em Camburi, pedimos café com pão esquentado na chapa, melhor do que Châteauneuf-du-Pape, pode-se beber no imaginário. A morte não existe enquanto não pudermos esquecer.
Minhas leitoras e leitores reincidentes, a realidade não tem gosto e não é qualquer sentimento que faz sentir.
Dorian Grey, meu velho cão vira-lata, não se esquece de nada.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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