Que fim levaram os papagaios? Uma mistura de aeronave, com arte e habilidade, nas festas juninas, feitos de talas, varetas e papel de seda cuidadosamente colados com o que grudasse melhor. Para depois alçar voos como um pássaro colorido.
Um pentágono de todos os tamanhos, também conhecido por pipa, cafifa e carrapeta, sustentados com linha, cada qual exerce sua função. E aí começa a mágica. Nunca mais vi um desses objetos voadores pintando o ar.
No quintal da minha avó Alice, subindo na goiabeira – árvore que não quebra de jeito nenhum – o grito de guerra: “O famoso está no ar para cortar e aparar”. Era a maior solenidade quando tio Aderbal chegava com o material de combate e punha lá todas as cores em papel de seda, e começava a construção. Os carretéis de linha já estavam lá.
Saiu do ar o cerol, que antigamente servia de arma de ataque e defesa. Esse tipo de arenga acabou. No quintal de Dona Alice havia muitas árvores, e era lá a rampa de lançamento para os combatentes e bailarinos. Respeite uma goiabeira secular, vais morrer primeiro.
Nunca mais olhei para um brinquedo tão lindo.
A localização no ar de cada pipa dependia do carretel e do vento do combatente. A eficácia dependia da habilidade, das manobras. Muitas vezes, um papagaio enrolava a vítima e babau, dançando o adversário com menos habilidade.
Às vezes, na esquina de cada rua, tinha um grupo de favoritos. Era uma dança multicolorida no ar.
Disputas afiadas preenchiam o céu. Quando em uma manobra de classe, uma pipa atacava a outra, só uma sobrevivia. Dependendo do vento, subia, descia, deixava-se capturar, ou largava no ar o inimigo, balançando e mergulhando. Quando uma era derrotada, caia leve ou sumia para longe e seu dono saia em disparada para recuperá-la.
Nunca mais olhei para algo tão exato, movendo-se com tamanha mágica.
Consideradas inimigas dos fios elétricos, as pipas se agarravam nos poste e nas árvores. Quase nunca era possível o dono recuperar sua preciosidade.
Hoje não tem mais nada disso. Agora é foguete, pra lá, tiros pra cá.
As estrelas continuam no fundo do universo.
Dorian Gray, meu cachorro vira-lata, fica de olho no céu.