“É bom ser um médico clinicamente competente, mas nele, necessariamente, deve pulsar uma pessoa”, estava escrito em uma placa na parede do geriatra que iria consultar para acertar algumas arestas do meu funcionamento. Lembrei que alguém que conhecia repetia essa frase: eu mesmo. Coincidentemente, não existem coincidências, mas determinismo, para meu contentamento era um ex-aluno.
No exercício da clínica médica — todas elas — e da pedagogia acadêmica, as magias do ensinar muitas vezes colam. O ícone da minha criação era — e ainda é, creio — sentir o outro, acho. Lembro da prova de avaliação dos meus alunos que inventei, logo no primeiro trimestre, geralmente, que usava em todos os recantos onde cantei meus versos, alguns sem rima.
“Formule 12 questões a respeito do que discutimos em aula ou leram por conta, em casa, e respondam”. Parece fácil, não? A intenção é que seja fácil mesmo. Nada pode ser tão criativo quanto o imprevisível, mesmo que seja copiado. Ninguém esquece o texto daquela questão que “colou”. É ou não é?
Por exemplo.
“A famosa cola, cola”, porque de uma maneira única e pessoal o aluno introjeta muito mais do que pede o assunto. Exageros à parte, a criatividade é o detalhe que garante o pertencimento do assunto. Melhor ainda do ponto de vista didático. É ou não é?
Então, voltando à minha consulta.
O médico saudou-me carinhosamente, havia sido meu aluno. Exato. Ao entrar na sala recebeu-me com alegria: “Meu professor!", mostrando um sorriso largo e carinhoso. A modéstia e a discrição me impedem de dizer do meu orgulho. Queridos leitores, provei do meu próprio remédio. Gostei. Esse tipo de remédio não precisa ser amargo.
Logo me veio à mente um texto que escrevi justamente para um dos cursos que ministrei e que usaria ao defender algumas teses ou apresentações. Tenho um carinho especial por um deles: “A função de transitar da Psicologia Médica”, cujo texto veio-me:
“…assim o presente trabalho representa uma opção no sentido de abordar concepções teóricas a respeito da função da Psicologia Médica entre as demais vertentes relacionadas ao espaço onde o inconsciente haveria de ser desvendado…”.
Tenho um carinho especial pela obra do psicanalista inglês Donald Winnicott, apresentada a mim pelo psicanalista, professor e amigo Julio de Mello Filho. Coloco fé em seus conceitos e a abordagem das posições do Sujeito nas relações com o tempo.
Penso, neste momento, em uma concepção que me traz muita lucidez, a inexistência do presente. Só é possível trabalhar em análise, ou qualquer psicoterapia, com o futuro e o passado. A realidade vai do passado para o futuro. Isso é a única coisa que não pode ser esquecida em qualquer relação entre humanos. O presente é imperceptível.
Parece estranho, não é? Se parece, já passou? Querido leitor, tente experimentar o presente, o passado e o futuro de qualquer coisa.
Após todos esses anos, em ricos contatos com diferentes pacientes, tive a certeza do que já havia experimentado. São eles que determinam o tempo, a gravidade e, portanto, a solução de suas próprias angústias, bem como todas as ocorrências da vida.
Alguns conceitos de Winnicott chegam próximos à perfeição: holding, ligado à segurança, verdadeiro e falso Self, olhar encantado materno, preocupação primária com o outro, ilusão e desilusão, objeto transicional…
Está nos planos deste humilde escriba detalhar, discutir, esses conceitos de vida.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, saudando minha volta de férias.