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Crônica

Do cinema preto e branco ao desejo de ouvir o outro

Assim foi que a fantasia tomou conta do meu inconsciente infantil e me ensinou a ouvir o próximo. Só podia ser psicanalista e jornalista. Feito

Publicado em 03 de Março de 2026 às 04:15

Públicado em 

03 mar 2026 às 04:15
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

O cinema para mim começou na infância. Era só descer a rua onde nasci, em Manaus, a Lima Bacury, com calçamento em pedra de cantaria, no centro da cidade, que ia dar na Praça da Polícia, onde estava o meu Colégio Estadual do Amazonas, para chegar ao Cine Guarany, o primeiro da cidade.
Foi ali que assisti a minhas primeiras felicidades lúdicas. O cinema não era de luxo, mas suficientemente encantador. Eu devia ter uns 12 anos de idade, quando vi pela primeira vez “A Marca do Zorro” e na sequência outros similares.
Foi nesse tipo de seriado que vieram, também, Hopalong Cassidy, Roy Rogers (Rei dos Cowboys), Rock Lane, Capitão Marvel e Mary Marvel, Tarzan e Jane, e outros.
Meu pai, Aderson, me escondia no paletó para que eu assistisse às sessões noturnas proibidas para crianças, Assim foi que aos 15 anos, mais ou menos, tremi de medo com as obra-primas de Hitchcock, “Um corpo que cai” e “Psicose”.
Filme Psicose (1960)
Filme Psicose 91960) Crédito: Reprodução/Universal Pictures
Além deles, “Zorba, o Grego”, com Anthony Quinn e sua famosa e típica dança na ilha de Creta, na Grécia, e eu nem sabia ainda o que era Grécia; “Quanto mais quente melhor”, com Tony Curtis e Jack Lemmon, que testemunham um crime da máfia em Chicago e, para fugir, disfarçam-se de mulheres, integrando uma banda feminina a caminho de Miami. Marilyn Monroe era a heroína principal; e “Shane: os brutos também amam”, com Alan Ladd.
Em frente ao Cine Guarany, todos os finais de semana, era armada uma tela ao ar livre onde projetava-se, gratuitamente, os documentários produzidos pelo fotógrafo francês, radicado no Brasil, Jean Manzon, que fundou a Jean Manson Produções. Todos nós ficávamos de pé, em frente ao telão e, com certo atraso de dias, assistíamos até ao noticiário nacional e internacional.
O Cine Guarany, mais do que outros na cidade, era benéfico para a divulgação do cinema nacional, ainda que em preto e branco. Lembro que assisti a filmes como “Carnaval no Fogo”, “O Cangaceiro”, “Rio, 40 Graus”, “Sinhá Moça” e as célebres chanchadas. Os reis das chanchadas descontavam com graça: Oscarito, Grande Otelo, Syl Farney, Dick Farney, Adelaide Chiozzo, Ankyto, Eliana Macedo, Fada Santoro, Zezé Macedo, José Lewgoy, Emilinha Borba, Linda Batista, Dircinha Batista, Anselmo Duarte, Renato Restier, Zé Trindade, Colé, Walter e Ema D’Ávila, Dercy Gonçalves, Sônia Mamede, Violeta Ferraz, e já havia muito mais.
Assim foi que a fantasia tomou conta do meu inconsciente infantil e me ensinou a ouvir o próximo. Só podia ser psicanalista e jornalista. Feito.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, não se conforma com a farsa da COP 30 e muito menos com a boa intenção de quem só se comunica com bombas letais.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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