Para começar do começo, tudo, absolutamente tudo, que paira no universo pode ser um brinquedo, inclusive essas miniaturas da natureza que a gente ganha no Natal, os risos, os sonhos, o amar, o chorar, o beijar, o ser beijado, o orar e tudo mais.
Parece estranho? Da psicanálise, Freud, Winnicott, Jung, Lacan e o brasileiro, e pernambucano, Julio de Mello Filho (que me ensinou a brincar com gênio e humor), além de outros cúmplices da academia, sempre me aproveitei da realidade lúdica e mágica.
Falando nisso, lembro que era presenteado em todo aniversário com uma lata mágica Aymoré, apinhada delicadamente de biscoitos sortidos vindos direto do céu, só pode.
Por isso, talvez, tenha lido, visto ou imaginado, em parte dado às minhas limitações, o tesouro que recebia no mesmo dia do ano, marcando a alegria do outro por eu haver nascido. Deixa pensar assim, é bom. Faz bem.
Quem recebe o brinquedo – independentemente da idade – o batiza à sua moda e maneira. Pode ser um velocípede, uma bola de gude, um navio. A interpretação do objeto carregado de afetos é dada na transmutação de quem recebe, assim como o valor.
É quando o coração se projeta rumo à alteridade. Mesmo os compartidos, como uma bola de futebol, têm para cada um dos jogadores ou jogadoras diferentes significados e intensidade.
Então.
Melanie Klein, a diva inglesa da terapia psicanalítica, desenvolveu a técnica de análise de crianças. Mas o início da análise de crianças começou antes, com o próprio Freud, com o estudo denominado “O Pequeno Hans”, onde ensinou o pai a lidar com a criança através dos brinquedos, entre outras coisas.
Na verdade, ninguém mais do que o pai de Hans – a mãe não estava apta suficientemente - poderia persuadi-lo a falar de suas graves angústias, ligadas diretamente à sexualidade. Só restava a simbolização da questão através dos brinquedos. Mesmo assim, não foram tão bons os resultados.
Mas foi Klein que aprofundou o papel do brincar no trabalho de análise de crianças. Observou que ao brincar, a criança – e não só a criança – poderia especialmente no primeiro ano de vida, e em alguns estágios posteriores de desenvolvimento, representar através do objeto-brinquedo fixações e experiências.
Para ela, e a maioria da escola inglesa, uma criança precisa do objeto transicional – de transição – que, aliás, foi alvo do estudo do conterrâneo dela Donald Winnicott.
Para eles, o brinquedo ou outros objetos ligados especialmente às crianças, como os travesseiros, que se transformam em amor e ódio, por exemplo, são insubstituíveis.
Então.
Ontem, ao atravessar a rua, fui chamado e presenteado com o livro de Paulo Marangoni, o maior “brincador” do belo rincão capixaba.
O livro fala sobre as façanhas do brincar com a bola e o futebol amador centrado no imenso talento de Paulo Marangoni, escrito por amigos. Logo ele que tinha a bola de futebol e no coração objetos transicionais.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, late saudado “Cabelo”.