Contei num livro, uns bons anos atrás, que minha afilhada menor chamava as pessoas más de ri-dí-cu-nas, com N, da forma mais fofa do mundo. Eu gostava não apenas do modo que ela pronunciava, mas da palavra em si, sonora como quando dizemos tempo em suas cinco letras, gramática, meteorologia, poesia ou então o jeito que a natureza deu para as coisas não se acumularem todas no mesmo instante.
Piscamos, e minha afilhada menor, que trocava o L e o R por N quando era pequena, chegou aos 18 anos.
Ela cresceu articulada e questionadora, com talento no esporte e na escrita, ouvido absoluto, muito amor pela música e pelos filmes de herói, um coração gigante que não se curva às injustiças da vida.
Ela tem lá umas teimosias e se exalta quando joga ou vê os jogos na TV, mas sua lealdade comove e seu amor se espalha, contagia.
Ela esconde a própria beleza nas fotos e prefere que eu não poste nem escreva sobre ela - no que, como se nota, eu falho miseravelmente.
Fico feliz de compartilhar canções e caminhadas com ela, de ter ido votar com ela pela primeira vez naquele domingo histórico, dos filmes que vimos com pipoca e pastilha de chocolate, das tardes e agora madrugadas. Fico feliz de ser para ela um porto-seguro, embora deseje que os dias de mar revolto passem ligeiros, cada vez mais longe.
Desejo que ela seja equilibrada e justa, solidária com os outros e feliz nas trilhas que quiser trilhar. Que estude quando for preciso, que saiba a hora de seguir e a hora de pausar. Que tenha um lindo futuro pela frente. Que não se esqueça da potência escondida nas sutilezas e se lembre de livrar os pés de todo sapato que aperta.
Que não confunda briga com luta.
[Porque, como disse o poeta, briga tem hora para acabar, mas uma luta é para sempre].
Que ela continue amando os livros e saiba o quanto uma canção é alegre se nos conforta, aconchegante se nos acolhe, apropriada se nos liberta, conveniente se nos inspira, oportuna se nos aquece.
Que ela cante, apesar do que pesa.
Desejo que ela nunca me esqueça, nem quando tiver 40 anos, mas que, principalmente, não perca a pureza do tempo em que olhava a vilã da novela e me dizia:
- Nauninha, a Flona é ridícuna.