É preciso ser mulher por muitos anos pra desaprender as coisas pelas quais ensinaram você a se desculpar.
Lembrei esses dias da frase estampada numa camiseta, a respeito do quanto a gente demora para desafiar o patriarcado, um pouquinho que seja. Acho que foi por causa da Luísa Sonza e do texto que ela leu na TV, exposta e emocionada.
Não posso dizer muito dela, se tem talento, por qual motivo divide tanto as opiniões, se lota shows, se vive de marketing, de música ou de ambos.
Não posso dizer propriamente que ouvi a canção meio bossa nova que ela lançou, porque de fato ouvi absorvida pelos afazeres diários. Não posso dizer que sabia quem era Chico, porque não sabia.
Não posso dizer que duvido que haja um teco de planejamento nisso tudo, porque não duvido. Da mesma forma, não posso dizer se houve ou não qualquer relação disso tudo com abafar o processo por racismo no qual ela está envolvida.
Mas, cá pra nós, deixando de lado o que eu não posso dizer, vê-la evocar em rede nacional as que vieram antes dela e foram igualmente traídas me comoveu.
“Hoje vocês não vencem. Hoje, eu quebro o ciclo pela minha mãe, por minhas tias, por todas as mulheres que eu vi a vida inteira sendo traídas e não tinham muitas vezes nem pra onde ir, acabando por ter que ficar com um traidor dentro de casa. Hoje eu dou um adeus, por mim e por todas nós.”
Somos muitas as mulheres que viveram ou testemunharam, de perto ou de longe, o que ela relata: a quebra de um elo, a normalização da deslealdade, o perdão que não se cansa de perdoar porque “homem é assim mesmo”.
É comum termos visto ou vivido a dependência econômica ou emocional que reforça o poder masculino e amplia a fragilidade feminina. Uma fragilidade que não nasce com a gente, mas, ao contrário, se constrói culturalmente, sempre que tentam nos convencer que nossas emoções, nossas finanças, nossas escolhas ou nossas posturas precisam da chancela masculina para prosperar.
A quem interessa reduzir a dor de uma mulher à histeria ou jogada de marketing? Desde quando amar franca e intensamente se tornou mais grave do que trair?
O amor deles tinha poucos meses, provavelmente não apresentasse ainda os sulcos que o tempo traz. Mas quem há de julgar o amor pelo tempo que ele existe?
Casais se juntam, se mantêm ou se separam por motivos, intensidades e caminhos variados. Mas, no fundo, no fundo, talvez seja aquilo que alguém disse, com um pouco de melancolia: que o mar existe e nele naufragam boa parte dos relacionamentos.