Sou neto de imigrantes europeus: um era italiano, veio com o pai e a mãe, aos seis anos, antepassado longínquo de um Matteo Ricci, que foi até à China, como Marco Polo; o outro, português, chegou com a mãe e a irmã, para trabalhar e mandar dinheiro para o pai, doente, em Portugal. Ambos vieram em busca da terra prometida e, se não a encontraram, me transmitiram, geneticamente, seus sonhos.
Minhas avós também são frutos de outros imigrantes: a mãe do meu pai era branca e magrinha, de olhos azuis, descendentes de portugueses ou de galegos; a mãe de minha mãe era filha de índia Puri e de pai negro. Tinha a pele morena e os cabelos muito lisos, que amarrava em tranças como as italianas, com quem aprendeu a fazer o pão nosso de cada dia, tão apreciado por meu avô e por todos nós. Santas mulheres, com a vida dignificada pelo trabalho, pela dedicação total à família e pela honradez de todas as virtudes.
Talvez desse sangue de europeus sempre em busca de outras terras, ou do sangue africano e puri dos bisavós, também exilados da terra natal, herdei, desde cedo, o destino cigano de ir sempre além, em busca do desconhecido. Desde menino, acostumei-me a subir as montanhas do Caparaó para indagar o que havia além do horizonte.
Tinha a curiosidade dos que não se prendem a vales ou a depressões e o meu primeiro livro de prazer foi "As Aventuras de Simbad, o Marujo". Aprendi com meu pai que, se não houver ponte para atravessar o rio, façamos uma pinguela. E nunca tive medo de viajar sozinho, de ônibus, de carona ou de trem, quando meu pai se foi, levado por uma dessas enchentes de janeiro, por longas distâncias que uma criança de hoje não faz, pois não se vai a pé nem à escola, ao lado de casa. Mudaram-se os tempos e a insegurança cresceu.
Na juventude, já percorria o Brasil, em busca de um conhecimento que satisfizesse meu desejo de sempre ver e aprender. O mundo era mais romântico e acreditávamos nas flores vencendo canhões. Aos dezoito anos, deprimido pela ditadura, tirei meu primeiro passaporte, com a intenção de cumprir o sonho de ser mochileiro na Europa. Minha mãe não queria, mas me apoiava; no entanto, ela morreu, e tive de adiar o plano, que só pude realizar, mais tarde, na maturidade.
Aos vinte, fiz minha primeira viagem internacional. Atravessei, emocionado, a pé, a Ponte da Amizade, e fui dar em terras paraguaias, onde embarquei no expresso ‘Caaguazu’ hasta Asunción. Lá, participei, com exilados chilenos, de uma noite de protesto contra a ditadura, no Teatro Municipal. Na época, toda a América Latina era uma ditadura só, que fui conhecendo, aos poucos. Também visitei, pouco mais tarde, a Cuba marxista-leninista e o Panamá, colônia imperialista. Depois, vieram Europa, América do Norte, Caribe, África, Ásia Oceania e, recentemente, o Ártico. Já percorri mais de cento e vinte países dos cinco continentes, dei a volta ao mundo algumas vezes, fui a mais da metade do mundo.
Se isso é sina de imigrante ou praga de ciganos que quase me levaram, um dia, não sei. Só sei que viajar é, para mim, uma forma de conhecer o mundo e suas diversidades. Santo Agostinho disse que “o mundo é um livro e quem não viaja só lê uma página”. Já li mais da metade desse livro, lendo bem devagar, para não chegar logo ao final, a última viagem, cujo retorno já veio incluído no bilhete de vinda, o único que ganhei, sem ter comprado, há 68 anos.
Foi um belo presente dos meus pais essa viagem para o mundo, que tenho procurado vivenciar, com olhos bem atentos e coração aberto. Amanhã (terça-feira, dia 10), lançarei, na Biblioteca Adelpho Poli Monjardim, às 19h, meu quarto livro de crônicas de viagens, motivo para conversar com gente que goste do mesmo que eu: ler e viajar. Bora lá?