Este é o mantra pronunciado pelo presidente Lula, em todos os fóruns internacionais de que tem participado, desde a sua volta ao poder, em janeiro deste ano: “O Brasil voltou”. Por quatro anos, estivemos alijados do cenário internacional por conta de uma administração nacionalista, nazifascista, que se ostentava em motociatas de correligionários, ou em orquestração de uma massa imbecil que, no dia maior de civismo brasileiro, o Sete de Setembro, atiçada por seu cappo, gritava “imbrochável”, palavra intraduzível em qualquer língua civilizada.
Depois da tentativa golpista hedionda do 8 de janeiro, a democracia voltou a reinar em nosso país, e o presidente Lula, em seu terceiro mandato, conduz o país ao rumo seguro da normalidade jurídica e democrática e retorna ao cenário internacional, como líder respeitado em todo mundo. “É o cara”, disse dele Barack Obama, e é mesmo!
E o discurso que fez na ONU, na semana passada, revela que é o único líder mundial que tem coragem de dizer o que precisa ser dito. Lula começa sua fala citando as recentes tragédias ocorridas no mundo por situações climáticas: terremoto no Marrocos, enchentes na Líbia e ciclone no Rio Grande Sul e diz que solucionar a questão climática, vinte anos depois de sua primeira fala na ONU, nunca esteve tão premente.
Depois, retoma a questão da fome, tema principal de sua fala inicial, nas seguintes palavras: “A fome atinge hoje 735 milhões de seres humanos, que vão dormir esta noite sem saber se terão o que comer amanhã. O mundo está cada vez mais desigual. Os 10 maiores bilionários possuem mais riqueza que os 40% mais pobres da humanidade”.
Poucos líderes mundiais podem ter um lugar de fala sobre a fome como ele. Lula é um sobrevivente da tragédia nacional, um emigrante da seca nordestina, cuja mãe fugiu com os filhos para o estado mais rico do país, para sobreviver.
“Hoje, é um milionário”, dizem seus críticos. Pode até ser, se o compararmos ao que era, mas nunca esqueceu sua origem nem nunca explorou o trabalho de ninguém para chegar aonde chegou. Pelo contrário, ajudou a muitos outros pobres como ele era a sair da miséria, pois só quem passou fome sabe o que é dormir sem ter um pão para comer.
E, no coração do capitalismo internacional, ele coloca o dedo na ferida: as dez maiores riquezas do mundo, a maioria concentrada nos EUA, são maiores do que o que possuem 40% da humanidade. A concentração de riqueza nas mãos de poucos é inadmissível, se quisermos sonhar com um mundo mais justo, solidário e fraterno. Os países escandinavos, que possuem os melhores IDH do mundo, têm altos impostos e taxas sobre as grandes fortunas, para oferecer saúde, educação e previdência subsidiados e de qualidade. Nos EUA, quem não tem plano de saúde privado nem entra nos hospitais. Morre na rua. Nós, pelo menos, temos o SUS, sem o qual os pobres doentes não sobreviveriam.
Outra parte da fala do Lula é sobre a volta do Brasil ao cenário internacional e à discussão sobre os grandes problemas mundiais: “O Brasil está se reencontrando consigo mesmo, com nossa região, com o mundo e com o multilateralismo. Como não me canso de repetir, o Brasil está de volta. Nosso país está de volta para dar sua devida contribuição ao enfrentamento dos principais desafios globais. Resgatamos o universalismo da nossa política externa, marcada por diálogo respeitoso com todos. A comunidade internacional está mergulhada em um turbilhão de crises múltiplas e simultâneas: a pandemia da Covid-19; a crise climática; e a insegurança alimentar e energética ampliadas por crescentes tensões geopolíticas. O racismo, a intolerância e a xenofobia se alastraram, incentivadas por novas tecnologias criadas supostamente para nos aproximar”.
Como integrante de uma das dez maiores economias do planeta, um dos maiores produtores de alimento do mundo, membro fundador do Brics, participante do G20, o Brasil tem um papel de liderança no cenário político, econômico e social do mundo, precisa ser eleito como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, que deve ser ampliado.
O que faltou no discurso do Lula? Uma condenação veemente da Rússia pela invasão da Ucrânia. Não se pode ficar em cima do muro, nessa questão. O louco do Putin não hesitará em invadir outros vizinhos e até mesmo enfrentar a Otan com o poderio bélico atômico de que dispõe, com apoio da China, da Coreia do Norte, de Bielarus e da Síria. E aí, poderá ser o fim da humanidade ou de grande parte dela. O Brasil não precisa apoiar a Ucrânia com armas, mas não pode deixar de condenar o Putin, arremedo de Stalin, genocidas.