Então vem a moça e indaga qual de meus livros prefiro. Eu fico tonta que nem barata tonta, porque me dou conta que não posso fazer a escolha de um só. Não tenho coragem de apontar o preferido de meu coração.
− Ah, meus livros, eles não são tantos afinal − respondo e tento me esquivar da pergunta. − Tem um montão de gente escrevendo por aí, como prova a enxurrada de lançamentos, de parabéns e de notícias nas redes. Talvez uma dessas pessoas possa listar não um apenas, mas dezenas de livros próprios que elejam como seus queridinhos. Mas eu, senhorita, olho para cada um dos meus e sinto uma débil ternura. Não consigo fazer uma escolha. E nem mesmo possuo uma cartela muito extensa de publicações: alguns volumes de contos, que brotaram como cogumelos na chuva; alguns romances, que não chegam a trezentas páginas cada um; algumas crônicas, espalhadas em revistas e jornais. Tenho ainda uma multidão de outros escritos, mas sem publicação. Continuam guardados em caixas, armários e gavetas.Esperando Godot.
− Godot? − diz a moça, com cara de espanto. E, rapidamente, passa à pergunta seguinte: o que eu sinto quando escrevo ficção?
− Bem, fazer ficção é uma viagem. A gente nunca sabe onde vai dar. O melhor é ir deixando pedacinhos de pão, atrás de si para marcar o caminho. Como Joãozinho e Maria, as crianças perdidas na floresta da bruxa.
A moça encara a metáfora, com brio.
− Entendo, ela diz.
A seguir, quer saber a razão por que escrevo. Eu digo que não sei. Só sei que preciso escrever, como quem precisa do ar que respira.
− Escrevo como quem chora quando está triste ou canta quando está alegre, acrescento toda satisfeita com essa frase de efeito.
− No fluxo caótico do inconsciente? − indaga a moça, caprichando no que parece que leu sobre o “Ulisses”, de Joyce.
Pela pergunta dela, dou conta da inconsequência um tanto bobinha (embora ache bem bonitinha, confesso!) de minha resposta. Desde quando acredito que escrever literariamente tem essa ingênua facilidade, ditada pelos sentimentos? No máximo, deveria ter dido que acredito que escrever ficção é um dom, como ensinam os griôs africanos.
Tento me redimir. Explico à moça que a experiência de quem escreve literariamente depende mais do profissionalismo do que da emoção. Bem mais suor e trabalho que inspiração. A moça me olha com ar de quem acredita que estou trapaceando. Dá por encerrada a entrevista. Gentilmente agradece.
“Talvez eu escreva apenas para ocupar o lugar que me cabe no mundo”, penso. E dou graças às deusas do senso comum, por ter encontrado, para mim mesma, a dignidade de uma explicação.