Atualmente, as antigas noções de verdade e de realidade estão totalmente desmoralizadas. Um exemplo disso é o desmantelamento da velha segurança que a palavra “cultura” apresentava. Fala-se muito em cultura, mas não se pode saber muito bem o que é isso.
Mergulhada em um caldo indiferenciado, que cozinha tudo aquilo que antes – porém não tão outrora – firmemente se acreditava inabalável e seguro, a noção de cultura parece resumir-se a um estilo a ser consumido, uma casca vistosa, um modismo posto a serviço de interesses mercadológicos.
Mas não há nada a fazer a respeito. Nem haveria, como especulam alguns defensores de uma solidez cultural mais tradicionalista. “Faz parte”, como dizia Kleber Bambam, um desses “ídolos culturais”, advindo de um programa da televisão. Hoje, a lógica da mercadoria e a lógica do signo cultural fazem parte de um mesmo processo que atravessa todo e qualquer campo da produção social, como ensina o crítico americano de arte Hal Foster, autor de “O que vem depois da farsa?”. Ou seja, já não se diferenciam os produtos, a não ser pelo valor do consumo.
O que existem são meras suposições que valorizam coisas e atitudes, por vezes nunca comprovadas, espetaculosas, lantejouladas e purpurinadas, manipuladas a gosto do freguês. Há quem diga que, nesse quesito, a parcela de culpa (ou de louvor?), cabe como uma luva na divulgação de modelos e costumes propagados nas mídias, as vilãs sempre mencionadas quando surge algum comentário quanto a essa espécie de apropriação dos sentimentos, do gosto e da opinião das pessoas.
Bem, não estou aqui a tergiversar sobre essas questões apenas para debater quinquilharias do dia a dia de acertos e erros em que mergulha esse estranho mundo de figurações e desfigurações, eleitas como a essência da codificação cultural. Nós, capixabas, temos também muitas dessas dúbias escolhas, resultado de nossa vontade em sustentar uma espécie de “representatividade”. O que é natural em qualquer sistema em busca de efeitos políticos, estéticos, didáticos ou... patéticos.
Mas nem sempre as nossas escolhas se sustentam. Às vezes soam como subterfúgios de ocasião. Pelo simples fato de que não comprova a alegada adesão à ideia de singularidade cultural de nosso povo ou de nosso território. Da mesma forma, não dá para evitar que a própria ideia de singularizar nossa tipificação cultural fique perdida na violência, rapidez e oportunismo da contemporaneidade, em que tudo se modifica, tudo é descartável, tudo é rapidamente engolido pela espuma dos dias.