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Crônica

A literatura está livre e pode ser o que bem quiser

Os campos autônomos da arte literária se apagam; desfazem-se as divisões, identidades, classificações e todas as fronteiras; terminam diferenciações como a que se fazia entre “literatura social” e “literatura pura”

Publicado em 29 de Agosto de 2023 às 00:20

Públicado em 

29 ago 2023 às 00:20
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra Bernadette Lyra
Literatura no ES: 3 obras fresquinhas para apreciar no feriado
Literatura Crédito: Freepik
O mês de agosto se acaba e eu acabo de ler uma crônica, muito bem orquestrada: “Adeus à crônica, sobre o fim silencioso e tímido de um gênero”, de Julian Fuks. Tal qual uma pitonisa do oráculo de Delfos, o autor prenuncia a morte da crônica. “A crônica não sabe existir neste mundo alucinado que já não alucina”, diz. Achei a frase de efeito bonita; o artigo comovente. Fuks (que nasceu no Brasil, mas é tido como argentino) é um desses escritores que sabem tocar os leitores, revirando a lama do fundo do poço dos sentimentos.
Eu já vinha pensando sobre o excesso, não apenas de crônicas, mas também de outros escritos que brotam como cogumelos na chuva e vão se espalhando por todos os lados, nesta nossa pátria gentil, onde fazer literatura se banalizou a ponto de virar o feijão-com-arroz das escrivaninhas caseiras. Mas creio que daí a decretar a morte futura de algum desses ditos “gêneros literários” é uma tautologia, com todo respeito para com o merecimento do autor. O caso é que para morrer é preciso estar vivo. E será que as diferenças genéricas ainda vivem na produção da escrita de hoje?
Nesse sentido, é prudente examinar as transformações culturais que se estabelecem a partir dos anos 70 e 80, do século XX. Segundo a crítica Josefina Ludmer (essa nasceu na Argentina, de fato), tais transformações colocam a literatura do século XXI na época das “empresas transnacionais do livro e das oficinas do livro nas grandes redes de jornais, televisão e outros meios”. A meu ver, entre esses outros meios, que podemos chamar de “transversos”, estão as redes sociais da internet, em que qualquer usuário pode dispender tempo e esforço para publicar narrativas entretecidas de fatos e personagens que, por vezes, ultrapassam a vã filosofia dos seres dedicados literariamente a criar.
Em decorrência disso, os campos autônomos da arte literária se apagam; desfazem-se as divisões, identidades, classificações e todas as fronteiras; terminam diferenciações como a que se fazia entre “literatura social” e “literatura pura”; desestruturam-se as formas nominais que separavam os chamados gêneros.
Talvez seja este o fim não da crônica, do romance, do conto, do poema, mas sim da lógica interna que regia a literatura. Liberada do poder que tinha de estabelecer as próprias leis e do aval das escolas, das academias de Letras e outras instituições que determinavam seus valores e suas relações com outras práticas sociais, políticas e econômicas, a literatura está livre, atravessa os limites entre a realidade e a ficção, pode ser o que bem quiser.

Bernadette Lyra

Bernadette Lyra Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve quinzenalmente, às tercas-feiras, sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

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