Ando pensando em minhas escritas, revendo algumas preferências de minha autonomia de escolhas. Faz parte do inventário que assola as criaturas no chamado “ocaso da vida” de que falam os poetas românticos, mas que não tem nenhum brilho de pôr do sol no céu. É quando os cabelos branqueiam, os ossos se atritam, o corpo esmorece e a gente se dá conta da insustentável ligeireza da existência humana.
Muitas dessas escolhas já declarei antes. Por exemplo, a paixão por palavras que cato, coleciono e tiro do baú quando estou alegre ou triste, ou nem alegre nem triste, tal qual a adorável Cecília Meireles. Algumas palavras são misteriosas como baldaquins, balançando fechados por cima de elefantes indianos. Outras são despudoradas como flores de maracujá das mais roxas. Umas são frágeis, quebradiças, ossos de borboletas. Outras têm carne rija, músculos duros, apresentam-se com bíceps e tríceps de um boxeador. Ah, e o som que elas fazem? Existem as que dão a impressão de que foram criadas por Beethoven, soam solenemente; e existem as que são leves como suspiro de clara de ovo. Sem falar nas que têm a sonoridade de um sibilo de sílfide (se é que sílfide sibila).
Seleciono-as também pelo sentido. Guardo algumas em caixas de luxo. Até bem pouco tempo, eu alimentava meu orgulho semântico-linguístico a cada vez que abria a caixa da palavra saudade. Mistura da solidão latina, solitas, com a melancolia árabe, saidah, essa estrela dos Lusíadas me deixava orgulhosa, sempre que eu a pronunciava. Até que descobri que a soidade, motivo de minha soberba, pode ser um manancial fecundo de péssima poesia. Vai de “mimosa paixão da alma” (Dom Francisco Manuel de Melo) à “pepita eterna da jazida efêmera do amor” (Hermes Fontes).
Consolou-me a disputa sobre a alemãzinha Seele (alma) traduzida por mind (mente) em inglês por ortodoxos freudianos que não admitiam que o Velho Senhor de Viena usasse um termo assim tão água com açúcar (e ele o usava, de fato). Para além disso, tenho verdadeira loucura por banzo. É uma palavrinha africana tão linda! Corresponde (ou quase) à saudade.
Certa vez, descobri a russa póshlost. Não descobri sozinha. Tive a ajuda de Vladimir Nabokov, que me ensinou que póshlost cai como uma luva em um tipo de fraude política, grosseira ou intelectual de certos sujeitos que têm um discurso falsamente correto, feito para enganar as pessoas, porque ele julga que as pessoas são um bando de trouxas. Aposto que vocês conhecem pelo menos um póshlost. São muitos. E andam a rondar por aí.