Estou buscando territórios de mim mesma. “A menina que fui, conheço-a, é claro”, como diz a admirável Wislawa Szimborska, no poema “Um amor feliz”. Existem, porém, interstícios, ladeiras e desvãos no caminho das recordações. E não raro a memória escorrega nos fatos que deseja reconhecer. Por exemplo, quando penso como começou minha saga de amor pelo cinema.
Eu era pequenina e já frequentava as sessões de filmes mostrados pelo meu avô. Era carregada no colo de minha mãe ou de minhas tias. Os filmes eram exibidos em uma espécie de barracão provido de bancos de madeira, à beira do rio Cricaré, que ainda nem cais tinha. Dessa forma, quando a maré enchia, ficava difícil ir até o local onde meu avô, ele mesmo, operava uma estranha traquitana de alavancas e lentes, movida a um líquido misterioso que até hoje não posso explicar o que é. Talvez não consiga também dizer quais eram as histórias que se desenrolavam, mas daquele facho de luz, diretamente dirigido à tela dependurada lá na frente, ah! disso eu me lembro.
Esse facho fascinante de luz me acompanhou e modulou os meus sonhos por longos anos. Na adolescência, era uma estudante de colégio interno e esperava com ansiedade as saídas dos domingos a fim de assistir às matinês do Glória, mergulhada na atmosfera obscura da sala, deslumbrada com o colar cambiante de cores que se sucediam antes do aviso sonoro final de que o filme ia começar. E tudo o mais se esvaía naquela maravilha de sons e de imagens que me faziam rir, me faziam chorar, me faziam permear outras histórias e outras vivências que não eram as do dia a dia.
Imagino que essas experiências primeiras marcaram meus sentidos e, mais tarde, me fizeram dedicar minha carreira acadêmica aos estudos cinematográficos, a par de minha inabalável devoção à ficção na literatura. Em decorrência disso, aprendi que o cinema é o lugar de toda miscigenação de ideias e ideais que, para o bem ou para o mal, a humanidade possa empreender. Inclusive das batalhas que se fazem em surdina em torno de busca de notoriedade, de celebridade e dos investimentos políticos e econômicos que circunscrevem a produção fílmica e seus desdobramentos.
Hoje, as projeções digitais ampliam e permitem experiências sensoriais diversas, mas o cinema sempre opera a mesma magia. Talvez essa magia baste para perdoar excessos e pecados da indústria de filmes, diante da arte luminosa de juntar ilusão, imagens e sons. E talvez seja apenas dela que eu necessite, para ficar em paz com as escorregadelas autobiográficas de minha imaginação.