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Crônica

Por duas polegadas a mais

Até bem pouco tempo, os países disputavam com unhas e dentes uma doce primazia: vencer o concurso de Miss Universo

Publicado em 24 de Outubro de 2023 às 01:30

Públicado em 

24 out 2023 às 01:30
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Até bem pouco tempo, os países disputavam com unhas e dentes uma doce primazia: vencer o concurso de Miss Universo. As preocupações das candidatas ao troféu que se expandia por todo o mundo, era alcançar o máximo da beleza feminina, contando com a participação, literal, do mundo todo em seus meios de comunicação. Desfiles, programas de rádio e apresentações em clubes em todas as camadas sociais.
Lembro que uma donzela baiana, Marta Rocha, classificou-se em segundo lugar, porque os estonteantes quadris eram dotados de duas polegadas a mais. O Brasil ficou triste. Nesse ano, venceu uma norte-americana, Gina MacPherson, acho, para o desespero do orgulho nacional, logo da Bahia, de onde surge tudo.
Lembro da marchinha de protesto que ocupava todas as estações de rádio do país, a boca do povo, e entrava pelo noticiário de TV adentro quando ela apareceu. Dizia assim: “Por duas polegadas a mais, passaram a baiana pra trás, por duas polegadas e logo nos quadris, tem dó, tem dó seu juiz”.
Em todos os recantos verde e amarelo a população se preocupava mais com o referido concurso do que se preocupa, hoje, com essas ridículas e covardes guerras mundiais, que não têm o menor cuidado e sentido, nem com os quadris, nem com o restante do corpo das pessoas. E não tem solução, só renovação.
Matam crianças, pois não olham para onde veem. Aumenta-se cada vez mais a capacidade de assassinar e não há vencedor, nem vencido, como em toda guerra. A bem da verdade, não tem nada de humano, especialmente o amor ao próximo: o oposto do Miss Espírito Santo, Miss Brasil, Miss Universo, etc.
Ao contrário, o concurso de Miss alcançava todos os cantões repletos de mulheres bonitas. (Na minha modesta opinião, nesse item, o Espírito Santo não perde pra ninguém).
Então.
No tempo das misses, editávamos em A Gazeta uma seção dentro do Caderno Dois, de humor e opinião matreira, inspirada em um tabloide nacional – O Pasquim – que tratava de assuntos seríssimos, como a ditadura na época - escrito e benzido com os melhores humoristas do país, como Ziraldo, Zélio, Jaguar, Fortuna, Henfil, Paulo Francis e grande elenco.
Pois bem. Fizemos o nosso risonho protesto contra as feras descerebradas do poder roubado, o Golpe de 64, com críticas e graça, sendo que cada um da redação dava sua opinião. Pequeninas, mas sinceras notas.
Batizamos as notinhas de “Opinião do Pessoal”. Acho que foi Erildo dos Anjos que inventou o título, não me lembro ao certo. Todos escrevíamos e assinávamos os tais textos humorados. Procurávamos as metáforas, de modo que os censores, geralmente de baixo poder aquisitivo cerebral, continuassem boiando, sem ligar as coisas, truque comum na época, considerando a parca inteligência de quem se dispõe a censurar cultura.
Respeitável público, dentro do movimento do concurso de Miss, havia uma instituição poderosa, a “mãe de Miss”. Essas senhoras, justamente torcedoras apaixonadas por suas filhas, controlavam diariamente se a sua candidata e filha estavam sendo devidamente iluminadas. Era uma verificação milimétrica sobre a redação do Caderno Dois, especialmente a opinião do pessoal sobre o assunto. Benza Deus, que nos protegeu.
Eu trabalhava aí e emitia minhas engraçadas – acho – opiniões sobre qualquer coisa. Ocorreu-me, então, em tom de brincadeira, entrevistar as candidatas do Estado através de um insólito questionário de ciências. Era um jeito de medir a competência que não fosse através de polegadas a mais ou a menos. Tivemos a disputa das candidatas e suas mães torcedoras. Teriam todas que responder um singelo questionário de múltipla escolha com perguntas do tipo “Quem descobriu o Brasil?”. Exigia concentração e tempo.
Passou-se.
Milson Henriques, cartunista, membro do Caderno Dois, indo ao Rio de Janeiro, e amigo do pessoal do Pasquim, mostrou a enquete para Flávio Rangel, um editor do semanário, que riu muito e publicou no jornaleco de maior circulação no país.
Milson, distraído como era, não citou a autoria do artigo, modestamente eu, que rolou no país todo como era de fé. Fiquei a polegadas da glória. O importante é que minha insólita entrevista no Caderno Dois, de A Gazeta, saiu, embora sem minha assinatura, de mãos dadas com O Pasquim. Já era o bastante para uma comemoração no Britz. Lembro do brilhante Sérgio Egito se pocando de rir e elogiando.
Quanto ao concurso Miss Brasil, que eu me lembre, na época, as capixabas nunca ganharam a coroa.
E olha que não tinha nenhuma polegada, nem a mais nem a menos
Dorian Gray, meu cão vira-lata, apenas torce o focinho.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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