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Crônica

Sabiás no quintal: nem tudo são flores

Na semana passada, ao chegar na varanda para a inspeção matinal de rotina, percebi que algo anormal havia acontecido, tamanha era a gritaria dos sabiás

Publicado em 20 de Outubro de 2023 às 01:00

Públicado em 

20 out 2023 às 01:00
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

A história do nascimento de dois sabiás no quintal é coisa para se guardar e para contar. Bastava me aproximar do ninho que os pais apareciam. O macho se mantinha mais afastado e a fêmea, sempre em guarda, controlava bem de perto meus movimentos, meio que querendo avaliar minhas intenções ao colocar comida num vaso ao lado.
Volta e meia ela dava um rasante sobre minha cabeça, como que dizendo pra manter distância dos filhotes. Foram tantos os rasantes que fiquei com a impressão de que ela estava me fazendo festa e resolvi incluir no cardápio mamão e ração de arara, além das pitangas.
Foram uns cinco dias nessa mesma toada, com os sabiazinhos crescendo, ganhando penas e sempre abrindo a boca amarela quando a mãe chegava com comida na ponta do bico.
Na semana passada, ao chegar na varanda para a inspeção matinal de rotina, percebi que algo anormal havia acontecido, tamanha era a gritaria dos sabiás. Eram gritos de desespero, como que me pedindo providências para algo terrível que tinha acontecido.
Custei a acreditar, mas o ninho estava vazio. Homem experiente, passei os olhos na vegetação em torno do pé de romã, em busca dos filhotes. Nada de nada. Como eles ainda não conseguiriam sair dali voando, imediatamente me lembrei do gavião que sobrevoa o bairro em busca de comida fresca. Por instinto, Amora sempre grita ao vê-lo passar lá no alto.
Foram quatro dias de desassossego dos sabiás e dos humanos que frequentam a casa. Isso, até eu avistar, pela janela do quarto, um filhote pousado no talo de uma folha de um dos mamoeiros, talvez atraído pela cor vibrante de um mamão madurinho. Logo avistei a mãe, agora tranquila, observando a cena do alto de um galho da goiabeira.
Sabiá no mamoeiro
A notícia boa é que fizemos a primeira colheita de mamão papaia no nosso quintal Crédito: Alvaro Abreu
Digo aqui que as minhas perdas recentes foram para muito além de um filhote de passarinho que mal conheci. É que perdi, em poucos dias, muita gente com quem muito convivi em diferentes fases da minha vida, incluindo: um amigo de infância, o moleque mais levado de Cachoeiro; um ex-contemporâneo de Escola Politécnica que produziu estudos que fundamentaram investimentos relevantes no Estado; um simpático empresário do ramo de padaria, que apoiou o que pretendi fazer quando voltei pra Vitória; e levei um susto ao saber da morte da esposa de um amigo visionário que modernizou setores tradicionais da nossa economia.
Perdi também um amigo de longa data que se dedicava a publicar livros sobre personagens e lugares relevantes do Espírito Santo. Como se tantas perdas não bastassem, dia desses perdi o sorriso de uma querida senhora que viveu mais de cem anos em paz com o mundo.
A notícia boa é que fizemos a primeira colheita de mamão papaia no nosso quintal. Dois já bem madurinhos e outro, maior, ainda de vez. Com a produção caseira, além de satisfação garantida, pretendo economizar alguns reais no café da manhã. Isso porque mamão praticamente dobrou de preço nos últimos meses, talvez porque os de Linhares devem estar sendo exportados a preços elevados. Os do tipo formosa que tenho comprado vêm com selo informando que foram produzidos no Vale do Rio São Francisco, lá pelas bandas de Pernambuco.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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