Não sei de pessoas conhecidas, além do meu cunhado Astrogildo, que tenham o hábito de frequentar o Mercado da Vila Rubim e seus arredores. Mas posso garantir que sei o que estão perdendo, seja pela animação das calçadas, seja pela variedade de produtos oferecidos em lojas, vendas e bancas, seja pela cara de satisfação de seus donos e vendedores.
Faz tempo que compro lá comida para minhas araras canindé: primeiro pra Aurora, a que trouxe de Brasília nos idos de 1980/90 e que passeava em cima dos muros da nossa casa, até o dia em que sumiu; agora, pra Amora, que ganhei de presente dos filhos e amigos quando fiz 70 anos.
É bem verdade que boa parte das emoções ocorrem, em parte, pelo contraste com a decadência surda e progressiva, percebida por quem passa pelas avenidas do Centro da Cidade, repletas de portas de aço arriadas, sem indicação de recuperação da vitalidade de outros tempos.
Pois ontem foi dia de ir lá fazer compras, ainda que com pressa, para não atrasar o almoço. Antes de mais nada, adorei ver que acabaram com a calçada inútil que separava as pistas na reta de chegada ao mercado. Ficou fácil estacionar pra comprar jujuba e, sobretudo, balinha de coco Itabira, que me oferece sabor de infância em Cachoeiro.
Pra começar, compramos um bom tanto de carne num açougue movimentadíssimo, onde a falação é animada e os preços são compensadores. Trouxe também um pouco de chouriço de porco, produzido por uma empresa de renome, que já provei e aprovei com louvor.
Aproveitei pra arranjar outro pote de gel de arnica com sebo de carneiro, um poderoso remédio pra dores lombares, torcicolos, pancadas na panturrilha e muito mais. O que havia comprado antes foi levado pra São Paulo. Na mesma lojinha, comprei uma daquelas vassouras feitas com palha durinha bem amarrada, ideal para varrer jardim, e confirmei que as peneiras perderam qualidade, talvez pela pressa dos descendentes dos que as faziam com todo capricho.
Desta vez não deu tempo pra ir na peixaria, onde gosto de comprar sarda na banca do vendedor que nem sempre concorda em me vender as que estão na pedra. Em retribuição a tal atitude, e por limpar peixe com todo cuidado, lhe dei um exemplar do meu livro das colheres. Na vez seguinte ele me perguntou, já sabendo a resposta, se o nome de mamãe era Gracinha, e foi logo dizendo que sua esposa era quem cortava os cabelos dela. Foi uma maneira emocionante de confirmar que o mundo é bem pequeno.
Também não entramos na nossa loja preferida de produtos a granel, onde freguês indica o tipo e a quantidade do que quer levar, e o vendedor, do outro lado do balcão, sempre pergunta se quer provar o que está comprando. Algo quase impossível de acontecer nos supermercados. Em compensação, não deixamos de trazer um queijo pasteurizado e um outro daqueles que dizem ter cheiro de curral, o que prefiro.
Na volta, me lembrei dos meus tempos de estagiário, exercendo funções de desenhista, no antigo Departamento de Obras do Estado, quando me coube desenhar as plantas dos prédios que seriam construídos naquele lugar e que, décadas depois, foram destruídos por um incêndio devastador.