Na semana passada não consegui fazer a crônica que deveria entregar na quinta-feira. Falaria sobre a trigésima edição do Festival de Cinema de Vitória (antigo Vitória Cine Vídeo), uma expressão da convicção de um pequeno grupo de pessoas, sobretudo de Lúcia Caus, de realizar algo relevante pra vida da cidade.
Falaria também das vacas coloridas que estão por todo lado, criando impactos variados, inclusive nos mais distraídos e em alguns de alma mais dura. Inusitadas e instigantes, bonitas e esquisitas, expressam que é possível concretizar uma ideia fora do quadrado.
O Festival deve ter deixado saudades em muita gente e as vaquinhas estão incorporadas às paisagens urbanas, em praças e calçadas.
A danação ficou por conta das reações provocadas por duas vacinas, que fizeram de mim uma espécie de vara verde, daquelas que tremem, um senhor destituído da capacidade de produzir frases dotadas de nexo e de alguma graça, indispensáveis aos textos leves e despretensiosos.
Ainda bem zonzo, tive a grata surpresa de constatar que, finalmente, nasceram os dois tão aguardados filhotes de sabiá-da-praia. Vistos de longe, entre as folhas, eles ainda estão bem feios. Praticamente pelados, literalmente esgoelados, abrem um bico amarelo enorme, à espera de comida.
O ninho foi feito com galhos bem fininhos, num dos vasos de orquídea dependurados no pé de romã, bem na altura dos olhos de quem se aventure a subir na ponta dos pés para inspecionar a cena.
Não é pra me gabar, mas é bom que se saiba que a escolha daquele lugar foi feita, livremente, pelo casal de sabiás que frequenta nossa casa faz tempo. Entendo ser uma demonstração de amizade e confiança nos moradores, expressando a certeza de que suas crias serão bem tratadas e terão comida farta e saudável.
Sob a supervisão severa da mãe, venho colocando, no vaso ao lado, punhados de pitangas colhidas na hora para, depois de mastigadas, serem levadas aos filhotes. Não sobra uma.
É bom que se saiba que guardo uma foto antiga em que estou lendo o jornal aberto, sentado ao lado de uma mesa, onde um parente desse casal se refestela com um pedaço de mamão que, malandramente, eu havia colocado ali. Mais relevante do que isso, tem um vídeo, feito por Diana, nossa caçula, de uma sabiá que voa da mesa da varanda para o chapéu que estou usando enquanto caminho com cara de cidadão plenamente realizado. Com a maior tranquilidade, ela vai dando bicadas no mamão vermelho que eu tinha posto ali, sob sua observação atenta.
Por essas e outras, tenho a impressão de que, em breve, as duas sabiás almoçarão diariamente conosco, na ponta mesa da sala, no lado da varanda. Só espero que nossa querida Amora não sinta ciúmes exagerados dos novos frequentadores do lar.