Diz um dos mandamentos do bom jornalismo que faltar uma única hora de luz na sua casa é mais importante, portanto, mais notícia, do que 10 milhões de chineses, por exemplo, dizimados por um daqueles terremotos ou maremotos que tem por lá. É o princípio da proximidade.
Dia desses ao entrar no meu carro vermelho, que conservo há dez aninhos, estacionado bem em frente ao histórico edifício onde moro, notei uma notificação de multa por “estacionamento em local indevido”. Segundo a lei – lei? -, o espaço de rua na quadra onde vós habitais não é passível de cobrança. Ainda mais se no prédio onde habitas não tens garagem. Além do mais conto com o benefício da idade. Do prédio é claro.
Pendurar multas no para-brisas dos carros escolhidos é o único serviço prestado pela Prefeitura de Vitória, através de uma empresa, no momento com especial volúpia por qualquer nota de um cruzeiro.
A segunda definição de notícia que conheço, define-a como algo que alguém ou alguma coisa, por qualquer motivo que seja, quer ou precisa esconder. O resto é propaganda.
A outra é a obrigação de evitar redundâncias e sinônimos ridículos. Lembrei que o famoso jogador Pelé fez 81 anos. Precisa do “famoso”? Se precisar não é famoso.
Além disso, quem volta não retorna. Hospital não é nosocômio, médico não é esculápio, abraço não é amplexo, e “concomitantemente”, segundo Millôr Fernandes, é a mundana que o colocou no mundo sem pai nem mãe, isto é, a PQP.
Vamos ao texto então. Se não vivesse nesse emaranhado de esculhambação e contracepção que enoja o país, ficaria chocado com a multa ao Ecosport, que meus melhores amigos apelidaram de Ferrari, talvez pela semelhança, valor de mercado, não sei.
Resolvi apelar para os meus direitos.
Encolhido dentro de um papelote mal impresso, um número de telefone para “qualquer reclamação”. Esse povo adora ver o cidadão sofrer.
- Bom dia é da prefeitura?
- Mais um idiota - ouvi uma voz comentando ao fundo.
Prossegue. Pelo que entendi:
- A prefeitura não tem nada a ver com isso. Isto é uma empresa contratada, por outra mais contratada ainda, e assim por diante
- E a senhora o que está fazendo aí?
- Dizendo que não é aqui. Esta empresa é super subcontratada, sabe como funciona isso, não é?
Resolvi adoçar o assunto. Queira a nobre madame explicar a quem devo recorrer, pois, além de tudo, quebraram o vidro da pobre Ferrari e roubaram o rádio e a minha única leitura divertida, o Diário Oficial da União de 1953. Na essência, nada muda, respeitável público. Só perde para os pronunciamentos oficiais dos poderes, como sabemos.
- Isso é com a prefeitura. Ligue lá.
- Mas a senhora e sua empresa não...
- Uma gargalhada cortou os céus. O senhor não quer outros números de telefone? Tem mais de cem números aqui. É política da empresa e da prefeitura distrair os eleitores, enquanto nós ficamos rindo da sua fé pública.
Um serviço público de pagamento obrigatório não tem a menor responsabilidade pelo veículo, nem por coisa nenhuma. Em seu lugar é, sempre, colocada a irresponsabilidade.
Com todo o respeito às instituições, prefiro contar com a vigilância e os cuidados do meu personal-flanelinha, o Zeca do Coco, e sua família. Eles ficam de olho no objeto deixado a seus cuidados – cobram o que você quiser pagar - e ainda lavam o carro. Não é à toa que minha Ferrari rubra está sempre um brinco, apesar das árvores da rua apinhadas de pardais, que sem cerimônia cobrem de cocô os autos ao alcance.
Se fosse a prefeitura, cobraria pelo trabalho dos passarinhos.
Dorian Gray, meu cão-vira lata, quer ser prefeito.