Se não tem missa não tem pelada.
Era assim que o padre Servino, do Colégio Salesiano, incentivava a religião nas puras almas adolescentes que pairavam em Jucutuquara e vizinhança. Uma mistura de fé e molecagem nos levava à missa. Depois um religioso leigo – Luiz Trator – distribuía as camisetas, dividia os times, e descalços ao sol realizávamos o insubstituível compromisso com o lúdico.
Jucutuquara é o coração da cidade e representa a alma mundana de seus moradores. O nome vem de Jucu-ita-quera, uma corruptela que significa “pássaro do buraco na pedra”, em referência à Pedra dos Olhos, parte da paisagem absolutamente singular da região (nunca mais falo mal do Google).
Tudo muda na vida, exceto o bairro limitado principalmente pela Escola Técnica, a fábrica de tecidos, o eterno Estádio do Rio Branco, o Cine Trianon, o Bar Rock, a delegacia do seu Flores da Purificação, e se for pela Rua Velha vai dar em Fradinhos. Ou onde quiser.
Embora seja o coração da cidade, lembro apenas de parte da história de que participei. Minha traiçoeira memória está pedindo ajuda ao meu amigo e compadre Leomar Barreto, cúmplice das ações mais importantes nas entranhas do bairro.
Havia dois líderes inimitáveis no pedaço, codinomes Jaqui Palânce e Toni Curt (em homenagem aos dois atores famosos). Inaugurando a ala de compositores, o respeitável Walter Pata Choca. Dizem que num certo Carnaval, a mando da dupla citada, compôs uma marchinha: “Existe um bairro em Vitória, que se chama Jucutuquara. Tem um bom cinema, uma pracinha e um estádio”. Sob os olhares atentos dos dois barra-pesada apresentou a segunda parte: “Em Jucutuquara não há mau elemento…”.
— Pode parar, quer gozar a gente — comandaram Jaqui e Toni. Dizem que naquele ano não teve samba no bairro. Acontece.
Uma entidade do bairro, chamada Atharé, um senhor gordo e alegre, era responsável pelo lúdico. Bondoso, tinha especial cuidado com a juventude, por exemplo, ensinando pessoalmente a garotada a dirigir. A garotada adorava. Além disso, ensinava violino e tocava nas missas. Tendo em vista, claro, o futuro da nação.
Éramos moradores de rua, especialmente da Paulino Muller, da Pracinha de Jucutuquara, Rua Velha e um pedacinho da Avenida Vitória: Laurinho Barreto, Augusto Lamego, Baúna, Barriguete, Landerico, Jairinho, Mateus, Rogério, Zé Maria Belas Coxas, Serginho Bonates e as meninas, que nossa honra de cavalheiros não permite citar em uma crônica mundana.
Exceção feita, obviamente, à Maria Papa-Filas que dedicou a vida às necessidades lúdicas da rapaziada.
As habilidades da turma eram incontestáveis. A mais utilizada era a entrada no estádio de costas, comendo um churrasquinho e fingindo que estávamos saindo. Nossa tática jamais foi descoberta e ninguém pagaria, como não pagou, um tostão de ingresso. Os porteiros em guarda e desespero, quando desconfiavam da trama, já era tarde. Talento é talento.
Para ir à cidade – Centro – era só pegar o micro-ônibus da empresa Marinho Delmaestro, o bonde e a célebre linha São Torquato-Jucutuquara. Tudo isso até o badalar da meia-noite. Depois, a agradável caminhada pela madrugada afora ou adentro, conforme.
Quem estudava, ia a pé ao Salesiano ou ao Colégio Estadual, onde fica a fronteira com o Forte São João.
Vem à lembrança a casa onde morávamos na avenida, bem na esquina com um pequeno terreno. Como ainda não havia spray em tinta, fazíamos manualmente um bastão moldado no chão de terra, basicamente com graxa de sapato e cola, para alguns de nós, os engajados na resistência, escrever nos muros da cidade a célebre palavra de ordem: “Abaixo a Ditadura”.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, levantou as sobrancelhas.