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Saudade

Adeus a Bete Rodrigues: quando vier a primavera...

Bete no meu entender era, como muitos de nós, apaixonada por Fernando Pessoa. Recitávamos, às vezes, textos inteiros do poeta

Públicado em 

21 set 2021 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Data: 11/09/2006 - ES - Vitória - Bete Rodrigues responsável pela campanha politica de Paulo Hartung - Editoria: Politica - Foto: Gildo Loyola - GZ
Bete Rodrigues, conhecida por seu trabalho no marketing político capixaba, morreu no dia 12 Crédito: Gildo Loyola/Arquivo A Gazeta
Ser real quer dizer não estar dentro de mim. Da minha pessoa de dentro não tenho noção de realidade. Sei que o mundo existe, mas não sei se eu existo. Estou mais certo da existência da minha casa branca do que da existência do interior do dono da casa branca. Creio mais no meu corpo do que na minha alma, porque o meu corpo apresenta-se no meio da realidade, podendo ser visto por outros, podendo tocar em outros, podendo sentar-se e estar de pé, mas a minha alma só pode ser definida por termos de fora.
Eu estava chegando neste instante em que Bete Rodrigues dizia estas palavras. Estanquei para ouvir, como fazíamos os amigos nas tertúlias de eventos, como aniversários, Natal, Ano Novo, onde cantávamos, tocávamos e muito, principalmente, falávamos. Toda vez tinha uma ou duas pessoas novatas no grupo. A Bete era agregação em forma de gente.
Continuo ouvindo a oração na voz de Bete, munido de uma taça de vinho chileno tinto na mão.
Quando tornar a vir a primavera, talvez já não me encontre no mundo. Gostaria agora de poder julgar que a primavera é gente para poder supor que ela choraria, vendo que perdera o seu único amigo. Mas a primavera nem sequer é uma coisa, é uma maneira de dizer. Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas enverdecem. Há novas flores, novas folhas verdes, há outros dias suaves. Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.
Lembro bem das imagens de Paulo Torre, Yamara, Terezinha Calixte, Marta Maria, Christina Abelha, Clovis Vieira, Aninha, Joelson Fernandes, Gloria Cristina, Flavinho, Pedro Roque, Bárbara, Bruno, Marcos Fagundes, Élia Marli Lucas, Rubinho Gomes, Tanit Mario, Jarrão, Rachel Martins, Luiz Tadeu Teixeira, Marcelo Netto, José Casado, e havia outros mais.
Todos podíamos nos manifestar e recitar um texto. Eu mesmo já fui orador da turma. Bete no meu entender era, como muitos de nós, apaixonada por Fernando Pessoa. Recitávamos, às vezes, textos inteiros do poeta. Ela e Pessoa ajustadissimamente se completavam e necessitavam um do outro.
Bem me lembro do dia em que falei pra ela a minha dedução sobre o significado de “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Coisa boba, mas eu me enchi de orgulho. O “preciso” não é de necessidade, é de exatidão. Grandes coisas a minha “descoberta”. Mas ela não perdia a oportunidade de acariciar o ego das pessoas queridas. Ela me amava, eu a amava. Na verdade, foi a demonstração mais próxima do amai-vos uns aos outros que já participei numa festa.
Em um outro Natal, recordo que Pessoa habitou nossa festa novamente, na voz de Bete. Foi a primeira vez que a vi falar da própria morte, incorporada à Pessoa.
Quando vier a primavera. Se eu já estiver morta, as flores florirão da mesma maneira, e as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. Se soubesse que amanhã morreria e a primavera seria depois de amanhã, morreria contente, porque ela era depois de amanhã. Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? Gosto que tudo seja real e que tudo seja natural. E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. Por isso, se morrer agora, morro contente. Porque tudo é real e tudo está certo. Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. O que for, quando for, é que será o que é.
Neste momento em que partes, meu coração tem um sereno jeito.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, faz uma reverência.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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