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Política

Uma vacina contra a perfídia instalada no Brasil

O DNA e o RNA de quem na política faz promessas em todas as direções e sentidos estão adoecidos, quando o que está reservado em cada célula é, na maioria das vezes, a popular mentira

Públicado em 

19 out 2021 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Vacina
Às vezes, Dorian Gray olha perguntando-me se não haviam inventado uma vacina contra o “Mau Caráter” para defender o bravo povo brasileiro da doença que nos assola Crédito: wirestock/Freepik
Querida tia Cecy, rainha do bridge e das palavras cruzadas de que foi colaboradora – dizia ela – na elaboração dos jogos e dos signos. Descobriu, por exemplo, que pedra de moinho é mó e que substrato do inconsciente da psique é id, sem o que o emaranhado de letrinhas, e outras milongas mais, e os jogos de cartas e pedrinhas seriam impossíveis de praticar.
Neste instante da vida, completo três meses, contados desde a terceira dose de vacina, não sem antes experimentar em Dorian Gray, meu cão vira-lata. Começo a contar a idade de agora em diante. O tempo de relógio é convencional. Faço dele o que quiser.
Às vezes, este cão olha perguntando-me se não haviam inventado uma vacina contra o “Mau Caráter” para defender o bravo povo brasileiro da doença que nos assola, já faz tempo, a ausência de escrúpulos dos mandatários desse honrado, delicado, belo, mas indefeso país.
Dorian Gray anda espalhando, por aí, haver presenciado um bebê empurrando a mamadeira do amiguinho em um berçário, para jogá-la ao chão. Estava no berço ao lado, escondido entre os parcos lençóis. Dorian podia ter denunciado aos latidos, mas não o fez, justo como as autoridades, com exceções, fazem no caso das vacinas ao esconderem o joguinho na porrinha. O bravo povo brasileiro, enquanto isso, vai caminhando, asfixiando-se, para baixo da terra. Um horror. Já se esqueceu minha senhora?
Respeitável público, descobriram que a educação é a base de todas as necessidades de uma pátria amada. Uma estrutura educacional, nos variados fatores acadêmicos e sociais, é o âmago da questão. Todo governo deveria começar por aí.
Mas que nada.
O DNA e o RNA de quem na política faz promessas em todas as direções e sentidos estão adoecidos, quando o que está reservado em cada célula é, na maioria das vezes, a popular mentira. Mas não tem nada não. Quem vota mente também, consciente ou inconscientemente. O brasileiro é o único eleitor no mundo que sabe que vai dar mancada. E dá
Mas quem sou eu para criticar mandantes e comandados?
Os absurdos do cotidiano do noticiário não mudam. Mas onde estará essa tal verdade absoluta se todos têm razão, ou quando pouco sua razão. Mas não sou obrigado à adesão.
Onde está então o mistério das coisas, a razão? Tomara que as coisas sejam mesmo o que parecem ser. E não haja nada a compreender.
Diz Pessoa que o único sentido das coisas é não terem sentido oculto nenhum. Pede que as coisas sejam realmente o que parecem ser e não haja nada a compreender.
Os sentidos, como as paixões, aprendem sozinhos
E não se esvai.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, ganhou uma guitarra.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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