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Reflexões da psicanálise

A arte da vida: o verdadeiro e o falso do existir

Um brilhante ex-aluno do curso de Medicina escreveu-me pedindo que explicasse o processo de maturação e independência da gente

Públicado em 

16 nov 2021 às 11:54
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Um brilhante ex-aluno do curso de Medicina escreveu-me ontem à tarde pedindo que explicasse o processo de maturação e independência da gente. Disse que ele andava confuso com os conceitos: “Cada livro diz uma coisa”. Isto é, fui eleito por ele para desvendar e conceituar os processos de unificação de amadurecimento da gente. Alunos não acham que você sabe desvendar os, às vezes, inatingíveis mistérios da fé. Eles têm certeza.
Passou-se.
Não sei por que ontem, ao deitar, pensei nisso. Quis saber de mim mesmo o que determinava o amor ao próximo, a maldade, o desejo, a relação com a alteridade, todo o conteúdo contido no Outro. Ando economizando luz elétrica e fiquei quase no escuro.
Lembro do professor João Chrisóstomo de Oliveira, que ensinava:
- Quem deseja, deseja alguma coisa. É um verbo transitivo e, portanto, exige previamente um objeto para ser desejado.
Este conceito ouvi pela primeira vez no curso ginasial, aula de Língua Pátria, como era chamada na época, já faz algum tempo.
Muitos anos depois, ouvindo do mestre Júlio de Mello Filho definições psicanalíticas, no caso do psicanalista inglês Donald Winnicott, quando comentou com extrema sabedoria as ramificações dessa ideia, levou-me à descoberta biológica do objeto direto, que chamou de Objeto Transicional, de transição.
Isso me leva a imaginar a trabalheira que tem um bebê para existir no mundo. A mãe, dita suficientemente boa, é capaz de servir como objeto e criar o duo, mãe-bebê, sem o que o bebê jamais existiria. Como não possui a concepção da forma ou função de si mesmo, necessita do espelho materno. Se olhar para qualquer espelho que reflete as nossas coisas, sabe o que vai ver? Nada, absolutamente nada. Não possui registro ou qualquer memória que permita o reconhecimento.
A mãe vai aos poucos “treinando” o bebê, através do contato insubstituível com a maternagem, para ter acesso aos demais objetos. Paulinho da Viola em seu samba “Coisas do Mundo”, manda lá : “As coisas estão no mundo, eu que preciso aprender”. Essa apropriação das coisas permite a cada instante a independência para Ser por conta própria.
Respeitáveis leitores, lembram daquele insubstituível travesseirinho, sem o qual vocês não podiam ficar, principalmente para dormir, sob pena de pânico geral? Pois saibam que ele sintetizava a realidade e o desejo imaginado que outrora fora a principal função da mãe. Da mãe suficientemente capaz de “representar” no mundo os desejos e necessidades que o bebê ainda não conseguia alcançar.
Esse Objeto Transicional, embalado pelo brincar criativo, contém os elementos necessários para a capacidade de estar só e se livrar do travesseirinho, da chupeta, seja lá o que a imaginação do bebê construiu dentro de um simples objeto.
Seria isso o amor ou o desejo de cada um à sua maneira? Dividir com o outro o plano afetivo, o perfume, a saudade, o ódio, e todas as ocorrências sistemáticas e invisíveis?
Então, deixar a chupeta em paz, o tempo que o bebê sentir necessidade, é uma luta contra a compulsão que faz os pais acharem que ao tirá-la da criança, ela vai amadurecer mais rápido, por exemplo. Calma, minha senhora, a chupeta e semelhantes é a única coisa que o bebê possui realmente (é bom não esquecer que a boca e a língua são os mecanismos que ligam e fazem a comunicação entre corpo e mente). Deixe a chupeta da coitada da criança em paz. Ela está em plena batalha para garantir o crescimento e a vida. Está incorporando o Verdadeiro Self e a vida real. O contrário seria a formação patológica de um Falso Self, um self desastrado.
Quanto mais livre e tendo sua parceria com o mundo que vem surgindo, melhor, mais verdadeiro. Para ter um Verdadeiro Self precisa ter respeitadas e acariciadas as suas necessidades e desejos nesse “jogo de frescobol” que não tem perdedor. Nem ganhador. É o Ser e o não Ser, entende, meu querido discípulo que crê nas minhas incursões pelo nada. Não seguir essa trilha duo - mãe-bebê - fabrica qualquer coisa no lugar da verdade do corpo que nasceu e quer ser autônomo e verdadeiro.
Shakespeare uma vez escreveu sobre isso, o que era raro: “Acima de tudo, um Self verdadeiro. E a isto se deve seguir, como a noite, o dia. Não deveria ser falso para ninguém”. O “Falso” aqui é de realidade, não de falsidade para ninguém. O Verdadeiro Self garante a arte da vida.
Quis saber ainda o que eu pensava de uma certa “onda de suicídio”, que ele havia percebido.
Preferi citar o que Winnicott falou sobre isso: “Suicídio neste contexto é a destruição caótica do que foi construído. O Verdadeiro Self se mantém até que o Falso organize seu aniquilamento”.
Pronto, colega, pior do que isso não sei escrever.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, é a pura histeria.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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