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Relações humanas

Ninguém sobreviveria sem a cumplicidade na tarefa de viver

Todas as funções do viver necessitam dessa parceria, o eu e o tu. Isso se torna evidente se atentarmos que o que determina a língua que cada um fala é o grupo social

Públicado em 

07 set 2021 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Estudo diz que humanos têm capacidade de manter até cinco amizades
Nós passamos a vida a procurar tristemente, insubstituivelmente, o Outro Crédito: Pixabay
Outro dia, um colega articulista de fino trato, Vitor Vogas, convidou-me a dar uma palestra para alunos sobre o nascimento e a paixão da arte, ou do artifício de desenhar uma crônica. Fiquei muito honrado, mas tive que recusar. Não sabia como começar, achar o meio ou o fim. Gostaria de ter ido. Não perdes por esperar, amigo.
Hoje, relendo um texto sobre as concepções psicanalíticas sobre a função do Outro em nossas vidas, a chamada alteridade, descubro minhas razões lógicas sobre o Ser e o Viver. Aliás, título de um livro de Julio de Mello Filho, uma referência nacional no assunto.
Ouço calmamente as revelações dos desejos de amigos e mais a mais suas tendências. No momento atual, uns governistas e outros antigovernistas. Mas esta categoria de “apolítico”, não existe por lógica. Seria “abobado” a opção, no caso.
Ausentar-se de um grupo que promove a possibilidade de vida e sobrevivência é algo impossível. Ninguém sobreviveria sem a cumplicidade na tarefa de viver. A começar pelas concepções de maternagem, viver e morrer. Na verdade, nós passamos a vida a procurar tristemente, insubstituivelmente, o Outro.
Todas as funções do viver necessitam dessa parceria, o eu e o tu. Isso se torna evidente se atentarmos que o que determina a língua que cada um fala é o grupo social. Não tem nada de anatômico. Filho de chinês, fala chinês, e assim vai.
A relação que um bebê estabelece com o mundo exige mútua compreensão e criatividade através do compartilhar de objetos e a forma com que faz isso. Sem falar nos vínculos essenciais à própria sobrevivência até a morte.
Vamos economizar, aqui, e não entrar nos ritos fantasmáticos de céu e inferno, com as respectivas diretorias. Todas as religiões de que tenho notícia baseiam-se, ao menos em tese, no “amar uns aos outros”. Isso já seria realizar a excepcional tarefa dentro da Lei de um deus.
Somos essencialmente melancólicos. A função de levar a vida consciente do morrer em algum nível impregna o inconsciente coletivo. O primeiro grande esforço observado se faz ao nascer, inclusive em busca da alimentação e do espaço. Aí começa a saga.
Amigos leitores, as coisas do mundo sempre estiveram aí. No início, se aprende e se desenha o caminho segundo nossa necessidade afetiva. O poeta espanhol Antonio Machado escreveu o seguinte verso, na minha opinião repleto de sabedoria: “Caminhante, não há caminho, se faz caminho ao caminhar”.
O inconsciente flerta com a gente, minha senhora. As frases de duplo sentido e o humor abrem um mundo de significantes e significados.
Criar o mundo a partir do nada, eis a missão do viver, seja lá onde for e de que forma criar isso que, aliás, já vem criado.
Não resisto à tentação de citar Carlos Drummond de Andrade, em “Poema de sete faces”: “Mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução”.
A comunicação e todas as atividades desse nosso vasto mundo compartilhado exigem interminável trabalho.
A ideia de Freud sempre foi estabelecer um modelo de aparelho psíquico, espécie de uma máquina especializada que trabalhasse para todo o corpo e suas relações objetais. Produzimos novidades necessárias para driblar o morrer das coisas e das pessoas.
A célebre “Interpretação dos Sonhos”, sua obra-prima, no meu entender, é um corte epistemológico que exibiu o Inconsciente e o acesso aos sonhos e demais repressões que vêm à tona. Entre outras coisas a tarefa de transformar o secreto Inconsciente em Consciente. Eis a sua maior descoberta.
Essa transformação é feita através de interpretação ou não. Ao analista, cabe discutir com o Outro a razão de suas percepções.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, brinca com a realidade.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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