Há exatamente um ano, escrevi aqui mesmo neste espaço sobre o quanto a pandemia tornou ainda mais distante o diálogo saudável com o que nos é estranho. Dentro das nossas respectivas bolhas, somos vigorosos, destemidos e convictos. Mas, fora delas, quanta disposição temos, realmente, para lidar com a diferença?
Enquanto eu me preparava para produzir este texto, o canal de notícias mostrava a história do vereador destemperado que chamou os adversários para a briga e acabou desmaiado, com a pressão nas alturas. Ouvi na sequência a respeito da vizinha que cortou a corda do andaime em que dois pedreiros faziam uma manutenção, simplesmente porque não tinha sido avisada pelo condomínio sobre a realização da obra.
Pouco antes, vi um amigo ser agredido, na sua rede social pessoal, por defender a punição ao jogador de vôlei que postou comentários homofóbicos. Vi defesas cheias de equívocos ao que chamam de liberdade de expressão - que eu também defendo, incondicionalmente, menos quando o que se expressa são crimes previstos por lei, como o racismo, a injúria racial e a homofobia.
[Praticar crime não conta como liberdade de expressão, concorda?]
Reli com tristeza o excelente texto em que a Mariana Reis enumera os retrocessos impostos às pessoas com deficiência nos últimos dois anos. Senti na pele a grosseria gratuita de gente que devia saber bem onde dói a opressão.
Que ninguém se engane: ainda é preciso estar muito bem preparado para lidar com a diferença. Apesar de todo o esforço em nome da diversidade, da inclusão e da empatia, nos relacionamos muito mal com a diferença.
Um ano depois daquele artigo sobre o quanto a pandemia nos distanciou do diálogo saudável com o que nos é estranho, o desrespeito e o preconceito seguem conquistando espaço, tanto na agenda pública quanto na vida privada.
Com uma ou outra exceção, a verdade é que, um ano depois, apesar de todo o esforço em nome da diversidade, da inclusão e da empatia, ainda são muitos os incendiários e poucos os bombeiros.