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Literatura

"Pequena Coreografia do Adeus": um livro que é a cara de 2021

Obra de Aline Bei é um retrato sensível e brutal sobre família, amor, abandonos, esperanças e vazios

Públicado em 

24 out 2021 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Livro
"Pequena Coreografia do Adeus", de Aline Bei, é também um retrato do modo como nossas relações, presenças e ausências moldam o que somos Crédito: Cia das Letras/Divulgaçãp
Tem sido um longo período de despedidas. Quantos eram conhecidos seus entre os 600 mil que perdemos para a pandemia no Brasil? Quantos faziam parte da sua família ou do seu ciclo de amigos mais próximos? Quantos você perdeu na matadora dobradinha 2020-2021 para outras causas, direta ou indiretamente ligadas à Covid-19? Para quantos ainda vamos dizer adeus até que a vida volte a valer algo neste país?
Quinta-feira perdi o sono (de novo) diante dos fatos da semana, das estatísticas recentes, do excesso de trabalho, do inominável e da leitura de "Pequena Coreografia do Adeus".
O livro de Aline Bei é um retrato sensível e brutal sobre família, amor, abandonos, esperanças e vazios. É um retrato do sufoco imposto a uma menina pelos pais que não se amam mais, depois à filha de um divórcio feito de indiferença e descuido e por fim à mulher dolorida e solitária que ela se tornou.
É um retrato dos estragos que a violência faz nos corpos femininos, muito mais do que os homens. É também um retrato do modo como nossas relações, presenças e ausências moldam o que somos. É, ainda, um desenho do quanto a gente se habitua a tanta coisa que, meu Deus, como-quando-onde vamos parar com isso?
Aline Bei volta à experimentação da forma que já víamos em "O Peso do Pássaro Morto", de quatro anos antes. Ela cria uma narrativa de versos curtos e design fluido, uma dança poética que alterna dor com respiro. Mas é o conteúdo o que mais chama atenção, reforçado pelo pesado contexto do período em que o livro foi lançado.
"nessa noite não ligamos o jazz. deve ser por isso que o barulho do escapamento ganhou volume aos meus ouvidos, fiquei com medo de que o carro explodisse, imaginei nossas partes voando pelo Céu. o engasgo do meu pai acendeu em mim o fato de que um belo dia as pessoas morrem, ninguém precisa estar doente ou velho pra que isso aconteça, a Morte se instala muitas vezes sem aviso, pois eu acho que seria mais educado se a Senhora pudesse Avisar. nos fazer uma festa, quem sabe? passar um filme com os melhores momentos da nossa existência. não sei se a Senhora sabe, mas não tem sido fácil ficar aqui, nesta terra, por isso eu acho que merecemos alguma consideração. por que as regras nunca mudam?"
Assim mesmo, em versos que não são versos e às vezes letras minúsculas, ela nos conta a história de uma jovem mulher que tenta seguir em frente apesar do que pesa. Uma história que combina em gênero, número e grau com o movimento sincopado de 2021 rumo à estação fundo do poço, mas sem perder o afeto e a esperança.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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