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Literatura

A leitura de "Torto Arado" e a lembrança de "Lavoura Arcaica"

Os dois livros são líricos e políticos, cada um ao seu modo, e discutem como se formam e se transformam os espaços do poder nas famílias e nas economias. Ambos contam histórias que, de tão locais, soam universais

Públicado em 

03 out 2021 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Cinema
Cena do filme "Lavoura Arcaica" (2001), de Luiz Fernando Carvalho, adaptação para o cinema da obra de Raduan Nassar Crédito: Reprodução
Andei pensando em Raduan Nassar, o recluso autor de “Lavoura Arcaica” e da frase que abre “Torto Arado”, o belíssimo livro de Itamar Vieira Jr. que li recentemente.
“A terra, o trigo, o pão, a mesa, a família (a terra); existe neste ciclo, dizia o pai nos seus sermões, amor, trabalho, tempo”.
Raduan Nassar tem um longo e seriíssimo relacionamento com a terra. Durante 30 anos, desde que deixou a carreira literária para plantar e colher arroz, milho e soja em uma fazenda perto da minha cidade natal, ele pareceu cultivar exatamente a mesma ideia: amor, trabalho, tempo.
Dizem que herdou do pai a paixão pela agricultura e da mãe o gosto pela pecuária. João Nassar trabalhou como lavrador no Líbano, antes de migrar para o Brasil, em 1920. Chafika Nassar, por sua vez, criava galinhas e perus para consumo da família.
Sétimo dos 10 filhos de João e Chafika, Raduan escreveu “Lavoura Arcaica” em 1975, "Um Copo de Cólera" em 1978 e "Menina a Caminho" em 1997. Em 1985, comprou a Fazenda Lagoa do Sino e trabalhou nela até 2012, quando doou a propriedade, avaliada em R$ 20 milhões, para a Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo.
Em uma rara entrevista, em fevereiro de 2021, aos 85 anos, contou que havia tomado poucos dias antes a primeira dose da vacina e defendeu que talvez a maior lição da pandemia fosse reafirmar que precisamos viver, e conviver, de modo comunitário e solidário. Repetiu, como de outras vezes, ao longo das últimas quatro décadas, que não sabe por que parou de escrever e, mais uma vez, disse que não voltaria a fazê-lo.
Mais de 40 anos separam “Lavoura Arcaica” e “Torto Arado”. Os dois, no entanto, têm mais semelhanças do que diferenças.
Ambos são líricos e políticos, cada um ao seu modo, e discutem como se formam e se transformam os espaços do poder nas famílias e nas economias. Ambos contam histórias que, de tão locais, soam universais.
Ambos são feitos de amor, trabalho e tempo.
Os pilares do ciclo formado pela sequência terra, trigo, pão, mesa e família movem tanto a história de “Lavoura Arcaica” quanto a de “Torto Arado”. Raduan Nassar ensina sobre as durezas do mundo, que se une se desunindo. Itamar Vieira Jr lembra que, se o ar não se movimenta, não tem vento e, se a gente não se movimenta, não tem vida. Os dois juntos, cada um ao seu tempo e modo, reforçam que a vida é feita de afetos, conflitos e ciclos.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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