A professora de biologia Gertrude Mokotoff e o comerciante Alvin Mann se conheceram na academia de ginástica, saíram para jantar e se casaram ao som de “Somewhere Over the Rainbow”. Ela tinha 98 anos e ele, 94.
Julia Hawkins era um pouquinho mais velha quando começou a correr: 100 anos. “Sempre fiz provas de ciclismo olímpico. Quando fiquei velha demais para subir as colinas, usar marchas e essas coisas, fui correr os 100 metros rasos”, contou a atleta, que hoje tem 105 anos e ainda corre (devidamente vacinada).
Os três, mais um alto executivo aposentado que começou a praticar corridas de cavalos de longa distância aos 70 anos, um professor de arquitetura que lançou seu primeiro disco aos 80 e uma ex-professora de inglês que aprendeu a tocar violoncelo mais ou menos na mesma idade, são personagens da inspiradora série de reportagens “Nunca é Tarde”.
Lançada faz alguns meses pelo departamento de projetos narrativos do jornal New York Times, a série conta histórias de gente que aprende novas habilidades ou persegue um antigo sonho quando a maioria de nós acha que muito tempo já se passou, que pouco tempo ainda resta, que estamos velhos demais para começar qualquer coisa.
Os personagens da vida real garimpados pelo jornal são gente comum, como eu, você ou a vizinha do 302. Gente que tem medo, dor nas juntas, falta de dinheiro ou saudade, mas, mesmo assim, encontra energia para embarcar em novas aventuras.
Gente que, ao longo do caminho, com o passar dos anos, segue acreditando que nunca é tarde, mesmo que pareça. Gente que não sabe até quando (e quem é que sabe?), mas abraça a vida com força, foco e fé, apesar do que pesa, dificulta, complica ou desanima.
O período de emoções à flor da pele que nos foi imposto pela pandemia reforça a importância de olhar a vida de outro jeito. As urgências são enormes, eu sei: comida para quem tem fome, a exaustão do isolamento, a recuperação da economia, a falta dos que se foram, o medo de mais perdas, a gente mesmo tentando se proteger sem suspender a vida.
Mas, diante do privilégio que se tornou o fato de estarmos vivos num cenário de 4,5 milhões de mortos, acreditar que nunca é tarde para começar parece mesmo uma boa ideia.