Há uns poucos dias, enquanto eu escrevia sobre o passo atrás que Simone Biles e Naomi Osaka decidiram dar neste turbulento 2021 em nome da saúde mental, um pedaço da história do cinema nacional queimava com o incêndio da Cinemateca Brasileira.
Embora distantes entre si no teor e na geografia, os dois temas se postam um do lado do outro no retrato atualizado do tempo de exílios, falências e mudanças em que vivemos.
Os sinais da exaustão que tomou conta da vida atual estão bem claros nas notícias sobre as duas atletas que saíram temporariamente de cena para buscar o equilíbrio e a leveza perdidos pelo caminho.
Quando o fogo de um prédio sem manutenção adequada consome acervos e equipamentos históricos como os da Cinemateca, os acenos são mais sutis. Mas basta uma olhadinha extra para ver a falência instalada, em todo o seu propósito.
Poucos setores sofreram os impactos da política recente e da pandemia de forma tão profunda quanto o setor cultural. Perdemos muitos fazedores de cultura no último ano e meio, perdas direta ou indiretamente ligadas ao descaso com a arte, a saúde mental, o equilíbrio perdido pelo caminho.
A pandemia fragilizou ainda mais a economia e as comunidades criativas. Ela também evidenciou a desorganização do setor e os interesses em mantê-lo assim, dependente, desordenado e quanto mais enfraquecido melhor em sua missão de questionar o poder e a ordem.
Por uma dessas ironias da vida, é exatamente na cultura que a humanidade encontra o ar que às vezes falta quando a própria humanidade está em crise.
A arte é um dos maiores patrimônios de qualquer sociedade. Ela revela o mundo por perspectivas diversas, mostra o quanto a alegria e o afeto podem ser revolucionários, ameniza as ausências e aponta saídas.
A arte estimula a imaginação, suaviza a maioria das rupturas, dá sentido ao mundo quando o sentido falta. O isolamento social, as muitas perdas impostas pela Covid-19, a recessão econômica e os corações partidos pelas distâncias e ausências reforçaram o poder cicatrizador da cultura.
Como dizia o poeta Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta. Ou, como ensinaram os gregos, bem antes dele, vida breve, arte longa, ocasião passageira.