Voltei a fazer pequenas caminhadas pela cidade depois de 500 dias de isolamento. À primeira vista, pouca coisa parece ter mudado além do fato de agora andarmos protegidos atrás da máscara, nos cumprimentarmos de longe e, se temos algum juízo, evitarmos aglomerações.
Basta uma olhada, no entanto, para entender que o espírito deste tempo de crises e perdas impregnou também o espaço público.
Há muitas histórias, sentimentos e sentidos escondidos ao ar livre. A forma como nos comportamos no trânsito, nos bares, nas praças ou em qualquer outro ambiente aberto diz muito do que somos como comunidade e como humanidade.
Os encontros, as interações e o modo como ocupamos as ruas, com afeto ou violência, empatia ou agressividade, solidariedade ou individualismo, também são repletos de significados.
Com a pandemia, os detalhes se tornaram ainda mais significativos. Quanto do nosso luto pode ser visto nas esquinas de cada bairro? Quando seremos novamente capazes de transformar as ruas em lugares de leveza e movimento? Como celebrar o milagre de estar vivo e própria vida em comunidade diante dos 4 milhões e meio de homens e mulheres que não tiveram a mesma chance?
Paulo Mendes da Rocha, um arquiteto com enorme senso poético, dizia que uma cidade se faz mais pelo comportamento de seus habitantes do que por suas construções. Para ele, antes que a cidade se torne feia, são as pessoas que se enfeiam. Assim, é o peso coletivo que deixa uma cidade pesada, a beleza que carregamos que a torna bonita.
Flanar, o verbo que aprendemos a conjugar com a poesia de Charles Baudelaire e a filosofia de Walter Benjamin, saiu de moda quando perdemos a alegria e a suavidade de caminhar sem compromisso e sem medo. Espero profundamente que as vacinas, o tempo e as caminhadas em si nos ajudem a recuperá-las.