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É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

Tarcísio Meira, Paulo José e a arte de ser cortês no Brasil de 2021

Dois gigantes da dramaturgia brasileira partiram num curtíssimo espaço de tempo, deixando um enorme legado não apenas para o cinema, a TV e o teatro, mas também para a memória afetiva de muitos de nós

Publicado em 15/08/2021 às 02h00
Perdas
Os atores Tarcísio Meira e Paulo José, mortos na última semana. Crédito: Reprodução

Eu ainda pensava no quanto os gregos tinham razão quando nos ensinaram que longa é a arte e breve é a vida, e de repente dormimos com a morte de Paulo José acordamos com a de Tarcísio Meira. Dois gigantes da dramaturgia brasileira que partiram num curtíssimo espaço de tempo, deixando um enorme legado não apenas para o cinema, a TV e o teatro, mas também para a memória afetiva de muitos de nós.

Não conheço a TV sem Tarcísio Meira. Do mesmo jeito, Paulo José e cinema brasileiro andam juntinhos nas lembranças mais antigas que tenho, desde sua voz no texto potente de “Ilha das Flores” e sua presença marcante em “Eles Não Usam Black Tie”.

Muito se falou ao longo da semana sobre a cena famosa em que os dois atuaram juntos e sobre suas trajetórias, uma mais rebelde e politizada, outra mais tradicional, embora também histórica. Muito se falou na beleza meio hollywoodiana de um e na carinha gente como a gente do outro.

Muito se falou, por mais óbvio que devesse ser, que o fato de Tarcísio Meira morrer de Covid mesmo vacinado não enfraquece a importância de estarmos imunizados.

[Sim, vacinas salvam muitas vidas, mesmo que não salvem todas.]

O Brasil de 2021, da pandemia, mas também da alegria e da solidariedade, chorou as mortes de Paulo José e de Tarcísio Meira coletivamente. Duas perdas que sentimos um pouco como se fossem nossas, como se ainda precisássemos de mais alguma coisa para lembrar do quanto anda difícil ser artista, ser constante e ser cortês no Brasil de 2021.

Perdemos gente demais no último ano, vocês sabem. Perdemos gente que nos fazia rir, como Paulo Gustavo, gente que nos fazia flutuar, como Aldir Blanc. Perdemos gente que fez a estatística sair do noticiário da TV para sentar no sofá, bem do nosso lado e gente que morreu de outras causas, mas igualmente fez de 2021 um dos anos mais difíceis da história toda.

Perdemos muitos fazedores de cultura, perdas direta ou indiretamente ligadas ao descaso com a arte, a saúde mental, o equilíbrio e a leveza perdidos pelo caminho.

Poucos dias antes da morte de Paulo José e Tarcísio Meira, escrevi, aqui mesmo, que a arte é um dos maiores patrimônios de qualquer sociedade. Ela revela o mundo por perspectivas diversas, mostra o quanto o riso e o afeto podem ser revolucionários, dá sentido ao mundo quando o sentido falta.

As partidas de Paulo José e Tarcísio Meira se somam às muitas perdas do setor cultural em 2021. Mas também reforçam, mais uma vez, o poder e a imensa capacidade que a arte tem de nos unir.

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