Que ninguém se engane: é preciso estar muito bem preparado para lidar com a diferença. A bolha em que a pandemia nos colocou tem dimensões ainda menores do que aquela em que vivíamos no verão passado. Se antes do afastamento imposto pelo coronavírus a tendência era curtir, amar e compartilhar o que se parecia conosco, durante o isolamento, o diálogo com o estranho se tornou ainda mais rarefeito.
A volta de parte das rotinas presenciais acendeu a luzinha. A trupe do bateu-levou, do eu-primeiro, da minha-opinião-é-essa-e-você-que-lute supera em número e energia a dos pacíficos, panos-quentes e conciliadores. Com uma ou outra exceção, há mais gente disposta a apontar o erro do que a construir o acerto, mais representantes do caos do que da calmaria, mais incendiários do que bombeiros.
Em que time você se coloca?
Dias atrás, pesquisadores da Universidade de Berkeley, na Califórnia, descobriram que duas pessoas olhando exatamente para a mesma cena podem não ver exatamente a mesma coisa. Os cientistas batizaram o efeito de “fingerprint of misperception”, “impressão digital da falsa percepção”, em tradução livre.
As conclusões da pesquisa foram publicadas na revista Royal Society. “Nós assumimos que nossa percepção é um reflexo perfeito do mundo físico ao nosso redor, mas esse estudo mostra que cada um de nós tem uma impressão digital visual diferente”, explica a psicóloga Zixuan Wang, uma das autoras do estudo.
Segundo a cientista, as variações no que cada voluntário viu são resultado da maneira como cada cérebro processa os estímulos visuais. Para ela, a descoberta tem reflexos em tudo o que requer uma visão precisa, mas depende da decisão de homens e mulheres, dos esportes à medicina, da tecnologia aos transportes.
E sabe o que isto tem a ver com as partidas travadas entre incendiários e bombeiros, fora das bolhas em que a pandemia nos colocou depois do verão passado? Tudo.
Afinal, se até o que à primeira vista parece igual pode ser visto de modos diversos por olhos diferentes, o que dizer do resto? Graças aos deuses e deusas, a inclusão e a diversidade são caminhos sem volta. Só nos falta aprender a lidar com elas, no tête-à-tête das assimetrias.