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Literatura

Uma releitura de "Outros jeitos de usar a boca", cinco anos depois

O pequeno e potente livro da poeta indiana Rupi Kaur, que no topo da lista de mais vendidos do New York Times por 40 semanas, reúne boas histórias que de tão particulares se tornam universais

Públicado em 

25 out 2020 às 05:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Rupi Kaur, escritora, ilustradora e artista performática indiana
Rupi Kaur, escritora, ilustradora e artista performática indiana Crédito: Rupi Kaur/ Instagram
Reli de uma só tacada o pequeno e potente livro da poeta indiana Rupi Kaur. Era um dia difícil, mas, por uma destas incríveis possibilidades da arte, “Outros Jeitos de Usar a Boca” parecia talhado para torná-lo mais leve, mesmo que leves, de fato, os poemas do livro não fossem.
Porque, a despeito do formato sutil, os textos de Rupi Kaur são o oposto da leveza. Temas como abuso sexual, violência, amor, sofrimento, maternidade, machismo e relacionamento abusivo contrastam com o traço suave e a escrita fluida de quem joga com elegância a bomba “de que somos | tão capazes de amar | mas escolhemos | ser tóxicos”.
Há quem diga [eu concordo] que as melhores histórias são aquelas que partem do particular e acabam nos contando algo universal. Sob este ponto de vista, a trajetória de Rupi Kaur, de tão única, podia ser minha, sua, de todas nós.
Nascida em Punjab, na fronteira da Índia com o Paquistão, ela partiu para o Canadá ainda criança e cresceu em uma comunidade de imigrantes no subúrbio de Toronto. Suas vivências são bastante específicas, rodeadas de tabus e regras sobre ser mulher em lugares patriarcais.
A história é relativamente conhecida desde que os poemas de “Outros Jeitos de Usar a Boca” se espalharam internet afora. Publicado de maneira independente em 2014, o livro chegou ao Brasil depois de vender mais de um milhão de cópias e ficar no topo da lista de mais vendidos do New York Times por 40 semanas.
Seu caminho é aquele das boas histórias que de tão particulares se tornam universais. Cantando a própria aldeia, os dramas das mulheres que conhece ou ouviu dizer e as gerações anteriores que não tinham direito sobre o próprio corpo, Rupi Kaur canta um mundo que vai além das fronteiras do tempo e do espaço.
Deste modo, ela promove um diálogo feminino e feminista com as mulheres que têm “dores | morando em lugares | em que dores não deveriam morar”.
Em tempos velozes e sombrios como os que estamos vivendo, o movimento que “Outros Jeitos de Usar a Boca” representa rompe em forma, conteúdo e plataformas com as estruturas tradicionais.
Em que pesem as críticas ao modo efêmero como eles nascem, crescem, reproduzem-se e morrem, conteúdos como os que Rupi Kaur produz contribuem para uma bem-vinda diversidade de olhares e discursos. Uma diversidade que ainda avança a passos lentos, apesar de todos os esforços, cinco anos do lançamento do livro.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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