Reli de uma só tacada o pequeno e potente livro da poeta indiana Rupi Kaur. Era um dia difícil, mas, por uma destas incríveis possibilidades da arte, “Outros Jeitos de Usar a Boca” parecia talhado para torná-lo mais leve, mesmo que leves, de fato, os poemas do livro não fossem.
Porque, a despeito do formato sutil, os textos de Rupi Kaur são o oposto da leveza. Temas como abuso sexual, violência, amor, sofrimento, maternidade, machismo e relacionamento abusivo contrastam com o traço suave e a escrita fluida de quem joga com elegância a bomba “de que somos | tão capazes de amar | mas escolhemos | ser tóxicos”.
Há quem diga [eu concordo] que as melhores histórias são aquelas que partem do particular e acabam nos contando algo universal. Sob este ponto de vista, a trajetória de Rupi Kaur, de tão única, podia ser minha, sua, de todas nós.
Nascida em Punjab, na fronteira da Índia com o Paquistão, ela partiu para o Canadá ainda criança e cresceu em uma comunidade de imigrantes no subúrbio de Toronto. Suas vivências são bastante específicas, rodeadas de tabus e regras sobre ser mulher em lugares patriarcais.
A história é relativamente conhecida desde que os poemas de “Outros Jeitos de Usar a Boca” se espalharam internet afora. Publicado de maneira independente em 2014, o livro chegou ao Brasil depois de vender mais de um milhão de cópias e ficar no topo da lista de mais vendidos do New York Times por 40 semanas.
Seu caminho é aquele das boas histórias que de tão particulares se tornam universais. Cantando a própria aldeia, os dramas das mulheres que conhece ou ouviu dizer e as gerações anteriores que não tinham direito sobre o próprio corpo, Rupi Kaur canta um mundo que vai além das fronteiras do tempo e do espaço.
Deste modo, ela promove um diálogo feminino e feminista com as mulheres que têm “dores | morando em lugares | em que dores não deveriam morar”.
Em tempos velozes e sombrios como os que estamos vivendo, o movimento que “Outros Jeitos de Usar a Boca” representa rompe em forma, conteúdo e plataformas com as estruturas tradicionais.
Em que pesem as críticas ao modo efêmero como eles nascem, crescem, reproduzem-se e morrem, conteúdos como os que Rupi Kaur produz contribuem para uma bem-vinda diversidade de olhares e discursos. Uma diversidade que ainda avança a passos lentos, apesar de todos os esforços, cinco anos do lançamento do livro.