Nas visitas anuais que fazemos ao interior de São Paulo para revigorar os laços familiares, poucos lugares são tão obrigatórios quanto a loja de discos do Riva. Mesmo nas viagens mais corridas, mesmo em tempos de grana curta, faça chuva ou faça sol, temos um acordo tácito. Aconteça o que acontecer, uma tarde se destina a garimpar discos, falar da vida e ouvir música, incansavelmente, naquela esquina que acaba de comemorar 20 anos de existência.
Riva é Erivaldo Cardoso, 47 anos recém-completados, um sujeito meio bossa nova meio rock'n roll que sobreviveu aos auges e quedas do mercado de discos de vinil sem fazer grandes concessões. Viu a fita cassete, o CD, MP3, Napster, Spotify, walkman, diskman, LastFM e um milhão de outras plataformas, firme e forte, de olhos nas novidades, mas com os pés firmes no long play, esta maravilhosa invenção do engenheiro Peter Carl Goldmark, lançada em 21 de junho de 1948.
DJ, pesquisador, produtor de cultura, vendedor de discos e, acima de tudo, um apaixonado por música, Riva nos guia nas escolhas, aponta o que não podemos deixar para trás, indica os discos que podem esperar pela próxima visita, resgata bastidores que tornam certas canções ainda mais bonitas.
O garimpo, quase sempre, acaba num bar ou num show de jazz, outro amor que partilhamos com ele.
Na loja, um altar para Jimi Hendrix, preciosidades de Miles Davis, camisas de rock e clássicos dos Beatles convivem com Elizete, Cartola, Sampaio, Macalé, Itamar e Melodia, em perfeita harmonia.
Meus favoritos são os brasileiros. Os álbuns de jazz igualmente me fascinam, como o Frank Sinatra descrito por Gay Talese no perfil famoso, segurando um copo de bourbon em uma das mãos e um cigarro na outra e padecendo de uma doença tão comum que a maioria de nós considera banal.
[Sinatra estava resfriado e Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível, só que pior].
Alguém já disse, com toda razão, a respeito dos LPs, que não há suporte mais perfeito para o exercício amoroso de se ouvir música. A loja de discos do Riva nos lembra do poder que os discos têm sobre quem se aventura a colecioná-los. E, como se fosse pouco, nos estimula a celebrar o afeto, apesar de toda aspereza lá fora.