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Memórias

Lembrando de Luiz Melodia na brisa fresca da Praia de Camburi

Avesso aos rótulos, aos lugares-comuns e aos refrões, ele era música, dança e cadência. Um preto que ousou passear do morro ao asfalto sem cantar (apenas) samba, apesar dos apelos das gravadoras

Publicado em 23 de Agosto de 2020 às 05:00

Públicado em 

23 ago 2020 às 05:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Cantor Luiz Melodia
Luiz Melodia na capa de sua biografia "Meu Nome é Ébano: a Vida e a Obra de Luiz Melodia" Crédito: Divulgação
Porque a memória às vezes nos prega peças, não sei dizer se estávamos em 1999 ou em 2002, mas provavelmente era domingo. Lembro da brisa fresca da Praia de Camburi, da areia que levemente arranhava os pés, do cheiro manso que vinha da maré e de Luiz Melodia surgir elegantemente vestido, ao lado de Renato Piau, Perinho Santana e seus violões.
Lembro dos primeiros acordes e do dedilhado inconfundível de "Fadas", que anunciavam a linda noite de música, leveza e afetos que viria pela frente. Lembro dele cantar "Cruel", "Magrelinha" e "Estácio, Holly Estácio", bem no compasso. E lembro do aprumo do figurino e das canções, em sua mistura perfeita de tristeza e alegria, soul e samba de fina estampa, pausa e movimento.
Lembro daquela noite de brisa fresca, cheiro manso, música, leveza e afetos enquanto leio as páginas iniciais da recém-lançada biografia "Meu Nome é Ébano: a Vida e a Obra de Luiz Melodia".
Um sujeito que - alguém já disse, com toda razão - transitou pelo samba, pelo rock, pelo blues e pelo soul, pertencendo a todos os gêneros e a nenhum.
Um cara rebelde e afetuoso que, nos anos 1970, desenhava as próprias camisas e calças boca-de-sino e pedia para a mãe, costureira, confeccionar. Um artista ao mesmo tempo popular e refinado, ligeiramente ressentido pela falta de reconhecimento comercial e pelo título de maldito dividido com Sérgio Sampaio, Jards Macalé e Itamar Assumpção.
Melodia era, de fato, como o ébano, madeira nobre, escura e densa de origem africana usada na feitura de móveis, das peças pretas de um jogo de xadrez, de instrumentos musicais, dos bemóis e sustenidos do piano que fica na sala.
Avesso aos rótulos, aos lugares-comuns e aos refrões, ele era música, dança e cadência. Um preto que ousou passear do morro ao asfalto sem cantar (apenas) samba, apesar dos apelos das gravadoras. Uma elegância só naquela mistura de pausa e movimento, tristeza e alegria, soul e samba e por fim uma pitada de Manoel de Barros - “os silêncios me praticam".

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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