Pouco se falava em diversidade e equidade em setembro de 1964, quando Quino publicou as primeiras histórias de uma menininha inconformada, libertária, divertida e esperançosa chamada Mafalda. Ainda hoje, e nestes dias mais do que nunca, a pequena defensora da liberdade, da igualdade e de rumos melhores para a humanidade aquece coraçõezinhos solitários do Sargento Pimenta ao redor do mundo.
Em uma das muitas ironias da vida, um dia depois da primeira aparição da personagem completar 56 anos, Quino se foi.
Nascido Joaquín Salvador Lavado Tejón, em julho de 1932, na Argentina, Quino viveu para ver Mafalda atravessar os anos atual e necessária. Mesmo depois de sua aposentadoria precoce, em 1973, ela seguiu influente e inspiradora. E, com seu olhar astuto e afetuoso sobre a vida cotidiana, a política, a natureza, as mulheres e os homens, do alto de seus seis anos de idade, acabou se tornando um potente ícone feminista.
Mafalda encarnou como poucas o lema feminista segundo o qual “o pessoal é político”. A frase resumia a ideia de que a ordem era começar com questões pequenas nas quais as experiências particulares se sobressaiam e então se mover rumo a questões coletivas, que muitas vezes são também as minhas, as suas, as de todas nós.
Assim, temas individuais como o desejo, a necessidade de se firmar no mercado de trabalho, a opção por ter ou não ter filhos, a busca por igualdade de direitos, de salário e de possibilidades deixaram o quarto para ganhar as ruas. Desde então, aprendemos a entender aspectos privados como aspectos profundamente politizados, porque reflexos de uma estrutura de poder secular em que, raras exceções, homens brancos estão no topo e mulheres negras, no fim da fila.
Em mais uma das muitas ironias da vida, Mafalda nasceu a partir de uma frustrada campanha publicitária para vender geladeiras e máquinas de lavar roupa para mulheres. Meio século e um pouquinho depois, Quino se foi, deixando a menininha feminista para nos lembrar da esperança, a despeito de todo o cansaço.