Que histórias estamos produzindo nestes meses de isolamento? Quantas delas serão contadas com alguma alegria? Que mundo teremos gestado depois que pandemia passar? Quais lições ficarão para além das vidas que se perderam?
A escalada do
coronavírus escancarou o quanto somos vulneráveis. Tristeza, cansaço, quilos a mais, desânimo, tarefas acumuladas, desemprego, divórcios, falta de grana, saudade, a notícia que acaba de chegar e nos deixa sem chão…
Que medidas devemos adotar para tornar as coisas um pouco mais leves? Como cuidar bem de nós e dos outros apesar da exaustão coletiva? Que perguntas fazer para recolocar a vida no prumo, a despeito do que passou? Que respostas podemos esperar diante delas?
“Umuntu ngumuntu ngabantu”. A máxima proferida no idioma zulu resume e reforça uma ideia, um caminho, uma possibilidade: “Uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”.
É a ideia de Ubuntu, uma palavra associada aos povos bantos da África Subsaariana que trata da importância das alianças e do relacionamento entre as pessoas, o bem-estar do grupo é mais importante que as vantagens individuais.
Uma sociedade sustentada pelos pilares do respeito, da compaixão, da partilha e da solidariedade faz parte da essência dessa filosofia africana. Na ética Ubuntu, “eu sou porque nós somos”, incluídos também os que já partiram, seus ancestrais e os que ainda virão.
Um professor de antropologia estudava os costumes de uma tribo africana e, ao final da pesquisa, propôs uma brincadeira para as crianças do lugar. Uma cesta de doces foi colocada debaixo de uma árvore. Ao sinal combinado, as crianças deveriam correr na direção da cesta. A primeira a chegar ganharia os doces.
Posicionadas sobre a linha de partida desenhada no chão, as crianças esperaram pelo sinal. Quando o pesquisador gritou o um-dois-três-e-já que autorizava o início do jogo, os pequenos se deram as mãos e, de mãos dadas, correram em direção à árvore. Diante da cesta, repartiram os doces entre todos, até o último torrão. Ubuntu.