A rua ia dar, depois de muito andar, em um igarapé, que recebia águas do Rio Negro, mas não chegava a ser um afluente nem de longe, como eram o Javari, Jutaí, Juruá, Tefé, Coari, Purus, Madera, Tapajós e Xingu. Igarapé é pititim, como se fosse a tradução de riacho, maior pouquinha coisa.
A rua Lima Bacuri, em Manaus, que tem lá até hoje, se deixaram em pé as derradeiras árvores, com nomes das tantas frutas típicas do Amazonas, é porque Deus ajudou.
Quando se juntavam em harmonia, davam um suco delicioso, com a vantagem de dispensar o açúcar. Curti lá minha infância e jamais soube que os nomes dessas duas frutas unidas - Lima Bacuri - na placa da rua era uma homenagem a alguém certamente importante, mas que até hoje, passados mais de 40 anos, não sei de quem se trata. (Me disseram que a rua Affonso Cláudio, onde moro na Praia do Canto, já se chamou rua da Jaca, antes de ser imortal, e eu acho a rua mais charmosa do bairro).
A rua Lima Bacuri, entre a Joaquim Nabuco e a Isabel, totalmente arborizadas e aguadas com a chuva de toda tarde na cidade, abrigava a casa da vovó Alice, em cujo colo experimentei o brincar e a realidade, embalado em uma cadeira de balanço.
Na entrada da casa, a sala, com seu piano de cauda Schwartzmann e os sofás velhos, porém nobres. Todos os primos batucávamos naqueles teclados. Em direção à cadeira, de onde orquestrava a Dona Alice o casarão, ficava a alcova.
Nunca mais vi uma alcova. Era um importante cômodo que não se destinava a nada e se destinava a tudo. Havia lá um imenso monumento à arte sacra católica e judaica.
Impunha-se lá mesmo um estrado que amparava o colchão, uma tela de arame especial, cuja finalidade era conter o pulo da garotada. Pelo menos o nosso. No canto da alcova, um incomensurável guarda-roupa para abrigar o terno dos homens adultos, que eram muitos. Vovó, naquela calma toda, deu ao mundo dez homens e seis mulheres. Exceto os tios Jorge e Jorgina, os homens recebiam o nome iniciado pela letra A e as mulheres pela letra Z.
Então.
Quantos não eram os netos que passeavam pela casa toda, subiam a escada de mármore, corriam pelo corredor até os quartos, a cozinha, o banheiro e o quintal, o lugar de toda a beleza. Só goiabeiras eram três, mangueiras duas, Espada e Rosa, um cajueiro, um ingazeiro, um mamoeiro, um açaizeiro e uma pupunheira, tudo na mais absoluta harmonia.
Escondido no fundo do quintal, o imponente galinheiro contendo e deixando passear, além das galinhas, uma família inteira de perus, patos, e do guardião do terreno de seu João, meu avô, que era de Brito-Inglez Bonates, e do cachorro, que não por acaso foi batizado de Nero.
O porão.
Logo na entrada da casa de Dona Alice, passado o portão de ferro, virando à direita, entrava-se no maravilhoso mundo para nós, a nossa caverna de luxo. A planta física era praticamente a mesma do andar de cima. O assoalho também era de madeira de lei.
João, meu avô, percorria rios adentro para comprar madeira dos índios e caboclos ribeirinhos. Aquelas imensas toras, previamente escolhidas nas aldeias, para não desmatar a ermo.
Assim era que navegando pelo Rio Negro e Solimões, cruzava-se com pequenas embarcações de poucos cavalos de força. Os troncos pesados, amarrados uns aos outros, vinham flutuando puxados pelos pequeninos barcos a motor, ou se fosse o caso, pelos batelões (grandes embarcações sem motor carregados de madeiras de fino trato, que se deixavam puxar pelos barquinhos motorizados).
Assim era que, margeando os rios, tribos e aldeias de mestiços, era feito o comércio da madeira e da borracha. Essa era feita de feridas paralelas nas seringueiras de onde escorria o látex, aparado em canecas. As seringueiras eram muito distantes umas das outras, de modo que o processo de aparar o látex era doloroso. Meus irmãos e eu acompanhamos muitas dessas aventuras de sobrevivência de todos, mas especialmente dos povos das florestas. Durante a Segunda Guerra, os americanos fundaram uma cidade engolidora de madeira no umbigo da selva amazônica, uma tal de “ Rubber”. Deitaram e rolaram.
O paraíso onde nasci vem sendo queimado, desmatado, roubado, vendido e o povo da floresta assassinado, quando tenta impedir o desmatamento de suas terras com a mais cínica omissão dos governos, que deveriam proteger essa terra ao invés de criar CPIs, por exemplo, que nunca dão em nada e estão longe de impedir essa política de enganação.
Dorian Gray , meu cão vira-lata, falou mal do Nero.